Wednesday, June 30, 2004

A Arqueologia do Amanhã, soluções para o jovem de hoje

Partindo de dois projectos extracurriculares pretende-se demonstrar que os jovens podem ter um papel diferente na Arqueologia, aproveitando os novos recursos informáticos e integrando projectos em todas as suas fases, desde a sua concepção até á sua implementação.

O primeiro caso diz respeito à base de dados "Maximus". O objectivo inicial desta base de dados visava proporcionar um método fiável de armazenar e disponibilizar a informação contida numa série de trabalhos escolares que incluíam a inventariação de locais de interesse arqueológico de diversos concelhos do país. Contudo o objectivo alargou-se e hoje o "Maximus" pretende ser uma boa maneira de conseguir uma carta arqueológica nacional aberta a todos e produzida pelos seus participantes.

O Arqueologia 3D aproveita as inovações tecnológicas existentes hoje em dia com a finalidade de reconstruir tridimensionalmente vestígios arqueológicos do modo mais fidedigno possível.

A PRE-HISTORIC ART DATABASE AND ITS RELATIONSHIP WITH A GIS EXPERIMENT

The “Past Signs and Present Memories. European Prehistoric Art: inventory, contextualisation, preservation and accessibility. – EuroPreArt” project was approved and co-financed by the European Union through the Culture 2000 program.
Its aims were to establish a data-base of European prehistoric art documentation, that included information’s about the art, images, maps and bibliography, to publish a guide of good practice and to present the results to the wider public, by building a web-site.
As a further aim, it was intended to contribute to the awareness, among European population, of the diversity and richness of European Prehistoric Art, as the oldest artistic expression of Humankind.
It also aimed to the improvement of methodologies on techniques of inventory, storing data, interdisciplinarity, networking and accessibility/diffusion, namely using new information technologies. It was intended the creation of a structure that may easy the introduction and permanent actualisation of a large amount of data, coming from different sources and dates.
The project focused on selected clusters, examples of the diversity of sources, from rock art to mobile art, from Palaeolithic to the Bronze age, from old stored records to modern field work studies.
Several European partners contributed for it’s accomplish, namely Portugal (coordinator of the project by the Institute Politécnic of Tomar), Sweden, Spain, Italy and Belgium.
After some weeks of discussion, the first guiding lines were established for a experimental database that would support all the information regarding the surveying of pre-historic art that were available in the participant institutions.
It was so created a database that was composed by 5 tables (Bibliography, Eurodb, Institutions, Keywords and Links) and 6 forms (Bibliography, EuroPreArt, Institutions, Keywords, Links and Pixnotes).
With the introduction of data, some little changes were made for the overall improvement of the database, as it’s data complexity assumed as relational database with characteristics that decreased to the minimum the entropy and reduction phenomena.
It was also thought that one of the next aims was the relationship of this database with a Geographical Information System.
Fruit of this collaboration and the natural change of ideas, new goals have been established, in a way that a all new project could be designed.
When the new Culture 2000 call for proposals opened, we wished the development of the Europreart project with a new proposal with the title: “Memories looking into the future: inventory, contextualization, preservation and accessibility”.
The aims of this new project is in few words: to promote new guidelines and a guide of good practice about the application of information technologies to this kind of heritage; use the socio-economic potential of prehistoric art to develop the regions in witch it is found, the majority of witch is needed; to construct new kinds of web based contents, didactic and scientific; to create a GIS that will be related with the database.
It was purposed to us, the improvement of the database and a devolopement of an experience of the connection of it with a GIS, using a restricted area, as a example of the analytical potentialities that we can achieve with the use of a GIS and its relationship with the information inserted in the database.
The chosen area was the Spanish side of the Guadiana Valley, from where several hundreds of carved rocks, from different periods, were recorded.
With this information we tried to make a set of thematic maps and spatial analysis with the relation of the carved rocks and the kind of landscape were they are inserted.
In the same way, we tried to developed a 3D landscape representation to better understand the space were the carved rocks are.
So, this work will be divided in three parts: the EuroPreArt database, the GIS connection and the importance of using news technologies in archaeology, and the analysis of Rock Art in the Cheles Zone.

Contributo para a análise do Megalitismo no Alto Ribatejo: Relatório final dos trabalhos sobre o megalitismo no Alto Ribatejo / projecto TEMPOAR

Introdução
Este artigo reporta-se aos trabalhos realizados entre 1998 e 2001 relativos ao megalitismo da zona do Alto Ribatejo e às conclusões retiradas do estudo que se tem vindo a desenvolver desde 1994.
Nos termos do projecto TEMPOAR (Territórios e Mobilidade no Alto Ribatejo), foram intervencionados entre 1998 e 2001, dois monumentos megalíticos: A Anta 1 do Rego da Murta e o Anta 5 da Jogada.
Os trabalhos de escavação desenvolvidos, sobretudo auxiliados por apoios logísticos de algumas instituições públicas, pelas parcerias com outras instituições europeias e pelo voluntarismo dos alunos do curso de Conservação e Restauro e Gestão do Território do Instituto Politécnico de Tomar, possibilitou-nos chegar a um conjunto de dados mais fiáveis para a interpretação deste fenómeno, ainda que consideremos insuficiente para colher conclusões que nos permitam compreender na totalidade o megalitismo desta região.
Este artigo será dividido em duas partes:
 a primeira referir-se-á aos monumentos megalíticos intervencionados entre 1998 e 2001, nomeadamente a Anta 1 do Rego da Murta e o monumento 5 da Jogada. Tratam-se de dois monumentos localizados a uma distância sensivelmente de 40 Km, integrados em necrópoles mas com características bastante distintas.
 a segunda parte aludirá algumas conclusões ordinárias que até este momento podemos retirar sobre o megalitismo do Alto Ribatejo.

I - Anta 1 do Rego da Murta
Contexto Arqueológico

As construções tumulares não são muito conhecidas na região de Alvaiázere, poder-se-á mesmo dizer que existe uma espécie de hiato entre a zona da Figueira da Foz e a zona sul do Distrito de Leiria (Leisner, 1998), provavelmente derivada do desconhecimento, dos poucos estudos desenvolvidos nesta zona ou ainda de outro tipo de hábitos de culto presente nas ocupações de grutas com enterramentos.
Mesmo as posteriores descobertas e inventários realizados após os estudos dos Leisner, pouco adiantaram neste tipo de contexto.
Em Alvaiázere podemos contar de dois, os monumentos dolménicos conhecidos.
A Anta 1 e 2 do Rego da Murta distam uma da outra de cerca de 250 metros, não existindo nos seus redores nenhum outro monumento conhecido, à excepção de um menhir descoberto aquando do acompanhamento da variante de Tomar do IC3, junto ao limite da formação dos Grés de Silves .
Em termos metodológicos e de futuro será necessário a realização de sucessivas campanhas de prospecções sistemáticas em toda esta zona.

Localização Pormenorizada

Distrito: Leiria
Concelho: Alvaiázere
Freguesia: São Pedro do Rego da Murta
O monumento em estudo implanta-se numa vasta plataforma de depósito fluvial a cerca de 20 metros da ribeira do Rego da Murta e do lado esquerdo da estrada municipal (Tomar - Alvaiázere).
Geograficamente, a Anta 1 do Rego da Murta localiza-se (coordenadas UTM) no Meridiano: 554,300 e no Paralelo: 4401,900.

Metodologia de escavação

Durante estes 4 anos foi nosso objectivo aplicar uma metodologia que se mantivesse a par das novas inovações e da utilização das novas tecnologias.
Foi exactamente com este objectivo que desenvolvemos um sistema de informação geográfica com georeferênciação dos materiais encontrados e com a vectorização de todas as estruturas postas a descoberto.
Os trabalhos iniciaram-se sempre pela limpeza do terreno, pelo corte da vegetação e pela remoção de entulhos.
Durante os dois primeiros anos (1998 e 1999) optou-se por dividir o monumento em 4 quadrantes, tendo sido iniciado o quadrante B e D. Só os materiais mais importantes eram registados com um X, Y e Z.
A partir de 2000, com a intensificação da escavação, delimitou-se a área em estudo, materializada por dois eixos ortogonais, definido pelo norte magnético e subdividido em quadrados de 1m lado.
Realizou-se o levantamento topográfico com distancias de ½ m de lado. O levantamento foi realizado com uma estação total com leituras aproximadas ao milímetro.
Todos os vestígios materiais foram devidamente etiquetados e coordenados pela estação total, à excepção dos vestígios ósseos que foram exclusivamente etiquetados.
Relativamente à área de escavação, esta foi alargada no sentido SE acompanhando a direcção do corredor continuando, contudo, a decapagem no centro do monumento no sentido de chegar ao bed-rock e de registar toda a camada estratigráfica existente.
Após as diferentes decapagens em área procedeu-se ao desenho tendo sido os diferentes pontos computadorizados pela estação total.
Toda a terra retirada foi peneirada. Nas principais zonas de escavação ou quando o estado do solo não permitia uma observação mais cuidada, a terra foi levada para o gabinete para ser peneirada com água.
A conservação do monumento foi garantida, durante estes anos, pela cobertura com telas e terra.
Esta mesma metodologia foi continuada em 2001, onde se ampliou o levantamento topográfico a áreas adjacentes, tendo em vista proporcionar graficamente uma leitura mais correcta da implantação do monumento.
O ponto Ø atribuído inicialmente foi alterado encontrando-se agora no centro da câmara, a 9.50m Este e 7 metros Norte do ponto a dado anteriormente pelo GPS. Também no ano de 2001 foi definido um novo ponto designado por b para as coordenadas (X,Y) – que ficou localizado a 10 metros a Sul e 0 metros Este do centro da Estação (ponto Ø). Definiu-se ainda um ponto c a 16m Norte e 0 metros Este.
A recta que travessa estes dois pontos dá-nos a orientação da estação que coincide com o Norte magnético. O valor de Z (altitude) é dado pela diferença em relação ao ponto d localizado no esteio 2. O mesmo ponto desde 1998.
A necessidade da definição do ponto b deveu-se à perda da localização do ponto a, devido aos trabalhos agrícolas que terão removido a estaca existente no antigo ponto acordado.
Para além dos diferentes levantamentos de desenhos, as estruturas foram fotografadas na vertical para posteriores vectorizações.
Em gabinete os vestígios materiais foram devidamente lavados, consolidados, marcados e desenhados.
Posteriormente procedeu-se à vectorização das diferentes estruturas e à localização espacial e integração contextual dos materiais encontrados.
Para este efeito foi desenvolvida uma base de dados em Access, que permitia o registo pormenorizado dos achados. As fichas integravam sobretudo campos relacionados com o contexto e com as características particulares de cada tipo de material encontrado.
No que diz respeito à vectorização e localização espacial foi desenvolvido um SIG (sistema de informação geográfica) em ArcInfo 8.1 que permitiu dispor e relacionar a localização do objecto com as suas diferentes características particulares.

Resultados

O desenvolvimento deste trabalho permitiu os seguintes resultados:

• No que diz respeito às estruturas:

A câmara é constituída por 8 esteios, sendo, desta forma, um monumento octogonal, com cerca de 5 metros de diâmetro maior (Figura 1).
A passagem para o corredor é feita entre o esteio 9 e 10, encontrando-se o monumento orientado a SE.
Na delimitação da área do corredor foi observado uma estrutura de calcetamento do esteio 9, bem como um conjunto de pedras que de alguma forma delineavam o limite lateral Oeste do corredor (Figura 2).
O esteio a pertencente ao corredor encontra-se tombado para Oeste.
Destaca-se, também, a descoberta de um buraco de poste no lado esquerdo do corredor, bem delimitado por pedras. Foi recolhida uma amostra desta terra para análise. O interior desta estrutura não continha nenhum material (Figura 2).

• Relativamente aos materiais, foram recolhidos:

Vários fragmentos cerâmicos na sua maioria da camada nº 2.
À excepção de um fragmento de cerâmica com decoração incisa arrastada, encontrada no ano de 2001, podemos descrever a maioria como que se tratando de cerâmica lisa, de formas fechadas, esféricas e base recta, com uma espessura entre 6 a 14 mm (Figura 3).
Os líticos, em maior número, contam-se sobretudo por elementos talhados, à excepção de uma goiva em anfibolito polida e uma placa de xisto lisa com perfuração também ela polida e sem decoração. Dos elementos talhados observa-se por ordem decrescente a presença de lascas (na sua maioria retocadas e em sílex), lâminas (trapezoidais e triangulares em sílex (2 completas), à excepção de uma lâmina em quartzo hialino completa) pontas de seta, micrólitos, contas de colar, alguns núcleos e um pendente (Figura 4 e 5).
Sendo ainda de assinalar a recuperação de um furador em osso (Figura 5) e de um outro instrumento indeterminado.

• Dos materiais osteológicos:

Foram recuperados cerca de 158 dentes tendo revelado até ao momento a existência de 18 enterramentos, sendo 7 de crianças e 3 de adolescentes.
As alterações morfológicas nos dentes denunciaram uma dieta composta quase na sua totalidade por alimentos duros e abrasivos.
A diagnose sexual mais limitada por 5 elementos que a poderiam caracterizar salientou a presença de 3 indivíduos do sexo feminino e 2 do sexo masculino.
Os diferentes achados osteológicos foram encontrados desconectados anatomicamente, fruto de trabalhos agrícolas e de possíveis enterramentos secundários.

• Estratigraficamente

O aprofundamento do Quadrante D permitiu chegar à conclusão da existência de 3 níveis estratigráficos (Figura 6).

1. Camada de superfície humosa de tonalidade castanha. Contêm diversos fragmentos de cerâmica recente e poucos vestígios de cultura material pré-histórica.
2. Camada argilosa castanha escura, compacta, com presença de uma grande quantidade de materiais pré-históricos e alguns fragmentos de cerâmicas mais recentes.
3. Camada argilosa avermelhada, com uma elevada densidade de granulometria, proveniente de depósitos fluviais da ribeira do Rego da Murta, com presença de alguns materiais pré-históricos.

• Amostras e análises:

Devido à falta de recursos financeiros não foram realizadas até 2001 nenhumas análises.

O Monumento 5 da Jogada
Contexto Arqueológico

A Anta 5 da Jogada integra-se num conjunto de mais 4 antas localizado a Este do Rio Zêzere.

Morfologicamente não se enquadra em nenhum tipo de monumentos até então inventariados nesta zona, tratando-se de um desvio claro à norma da necrópole que a integra.
O estado de degradação deste monumento levanta-nos sérios problemas na sua compreensão.
Contudo, a configuração do monumento leva-nos a considerar a sua inserção numa nova tipologia e a separá-la em termos teóricos da funcionalidade e talvez do significado simbólico que teriam as outras antas que compõem a necrópole da Jogada, Val da Laje e do Vale do Chãos.

Localização Pormenorizada

Distrito: Santarém
Concelho: Abrantes
Freguesia: Aldeia do Mato

A Anta 5 da Jogada encontra-se implantada na margem esquerda de um dos afluentes numa vertente virada para o Rio Zêzere e com visibilidade para a Anta do Val da Lage.
Integra-se numa necrópole de mais 11 monumentos que se implantam em chãs elevadas com boa visibilidade.
Geograficamente o monumento 5 da Jogada localiza-se a 230 m de Altitude com Meridiano: 561,24 e Paralelo: 4377,65 (coordenadas UTM) (Cruz e Oosterbeek 1998 ; Cruz e Oosterbeek 1999).

Metodologia

Tratando-se de um local em situação de ser destruído toda a metodologia foi direccionada, pela responsável da escavação , para a minimização e protecção do local em questão.
Assim, ao longo dos 4 anos, foi sendo levantado um registo fotográfico bastante intensivo a par da escavação em algumas áreas mais atingidas.
Todos os anos se procedia à limpeza, à remontagem dos eixos da escavação e à sua consequente subdivisão em quadrados de 2 m de lado.
Durante estes anos também se desenvolveu um levantamento microtopográfico da zona a intervencionar. Durante a escavação, as terras retiradas iam sendo peneiradas com uma malha de 5 mm e todas as estruturas e perfis devidamente desenhados.
Os materiais recuperados foram coordenados e posteriormente tratados em laboratório tendo sido devidamente conservados, registados e em alguns casos reconstruídos.
Para a protecção do monumento foi utilizado “tela verde” e grandes blocos rochosos de fixação.

Resultados

O desenvolvimento deste trabalho permitiu os seguintes resultados:

• No que diz respeito às estruturas:

O monumento apresenta planta sub-circular, envolvida numa mamoa com cerca de 2 m de altura, 18 m de eixo maior (Norte-Sul) e 15 m de eixo menor (Este-Oeste). (Figura 7)
Os esteios que compõem a câmara encontram-se adoçados ao afloramento.
Segundo Ana R. Cruz , provavelmente este aglomerado poderá ser propositado para a definição da estrutura e aproveitamento do espaço, contudo só poderá ser confirmado com a continuação dos trabalhos.
A laje de cobertura, também presente encontra-se fracturada em dois blocos.
À semelhança da Anta 1 do Val da Laje, a mamoa encontra-se delimitada por um anel periférico composto por um conjunto de pequenos blocos verticais, exposto no quadrante Leste aquando da abertura de um caminho florestal. (Cruz e Oosterbeek 1998)
Contudo a maior parte das estruturas têm sido destruídas em função da plantação dos eucaliptos.


• Relativamente aos materiais, foram inventariados:

Alguns fragmentos cerâmicos de cariz votivo (pequenas dimensões) e outros rudimentares e de diâmetros alargados provavelmente de cariz mais funcional. Foi possível recuperar 2 vasos quase completos de morfologia esférica.
Os materiais líticos são na sua maioria talhados, entre eles destacam-se lascas de quartzo e quartzito retocadas, fragmentos de lâmina e lamelas, pontas de seta (uma inacabada) em sílex, um elemento de foice, raspadores, raspadeiras e um seixo rolado com entalhes laterais de secção ovalada..
Em anfibolite destacam-se 2 fragmentos de machado.

• Estratigraficamente

O estudo desenvolvido permitiu observar 3 unidades estratigráficas (Figura 8).
1. “Solo actual de textura pulverulenta e castanha-parda, com grande quantidade de matéria orgânica em decomposição. Encontraram-se alguns fragmentos de cerâmica vidrados.
2. Camada composta por sedimentos areno-siltosos de côr amarelada, com presença de artefactos e ecofactos pré-históricos.
3. Camada estéril com algum material pré-histórico que aparecem sem excepção por baixo de blocos médios de gneiss.” (Cruz e Oosterbeek 1999)

• Amostras e análises:

Devido à falta de recursos financeiros não foram realizadas até 2001 nenhum tipo de análise, contudo foram recolhidas diversas amostras para posteriores estudos.

Análise genérica do megalitismo da região do Alto Ribatejo.
Dos 16 monumentos conhecidos foram até este momento intervencionados totalmente a Anta 1 do Val da Laje (Abrantes), parcialmente o monumento 5 da Jogada (Abrantes) e a Anta 1 do Rego da Murta (Alvaiázere), sondadas as Antas 1, 2, 3 e 4 da Jogada (Abrantes), as Antas 1 e 2 de Vale dos Chãos (Abrantes) e a Anta das Pedras Negras (Tomar), prospectadas os monumentos 2, 3, 4 e 5 de Val da Laje (Tomar), restando a Anta 2 do Rego da Murta (Alvaiázere) sem intervenções assinaláveis.
A grande destruição e alteração na sua estrutura que foram alvo algumas antas (2, 3 e 4 da Jogada e 2, 3, 4 e 5 de Val da Laje) impossibilitam-nos de retirar determinadas conclusões, sobretudo relacionadas com a morfologia que as constituía.
Observando o mapa nº1 torna-se notório, aquilo que poderão ser 3 zonas ou 3 conjuntos de necrópoles.
A zona intitulada com o número 1, pertence ao concelho de Alvaiázere, onde se destacam os monumentos 1 e 2 do Rego da Murta.
Morfologicamente são muito semelhantes, ambos são munidos de uma câmara sub-circular de grandes dimensões (entre 3 a 5 metros de diâmetro) com corredor orientado para a Ribeira da Murta.
A matéria-prima utilizada na sua construção é muito distinta das outras zonas analisadas, havendo um aproveitamento da matéria-prima local (calcário).
O material recolhido aponta-nos para uma possível aproximação com o megalitismo da Beira Litoral, havendo em alguns casos uma semelhança artefactual com as grutas do Nabão.
Contudo, só após o desenvolvimento do estudo se poderá clarificar as nossas conclusões.
Uma segunda zona poderá ser identificada mais a Sul.
Apesar de só conter um monumento terá sido, possivelmente, integrada numa necrópole, contudo não foi observado nenhum vestígio que o confirme.
A anta das Pedras Negras, localiza-se em Tomar numa zona elevada com visibilidade directa para o Rio Zêzere, uma implantação muito semelhante à Anta 5 da Jogada. No entanto a tipologia é idêntica à maioria dos monumentos do Baixo Zêzere. (Cruz e Oosterbeek 1999, 239)
Os escassos artefactos recolhidos, na sua maioria líticos, não nos permitem tirar grandes ilações quer em termos cronológicos, quer em termos culturais.
A terceira zona, esta de grande extensão poderá englobar, o que designamos pela necrópole de Val da Lage (5 monumentos), necrópole da Jogada (5 monumentos) e a necrópole de Vale dos Chãos (2 monumentos).
Este terceiro conjunto de necrópoles poderá ser dividido em dois se atendermos ao rio como fronteira divisória. Assim poderíamos considerar as estações do Val da Laje num conjunto e as da Jogada e Vale do Chãos num outro diferente. Contudo os objectos encontrados nos dois mundos, a inter-visibilidade entre alguns monumentos com o lado oposto do rio, bem como as estruturas e a morfologia arquitectónica apontam-nos para a existência de um, possível, único grupo.
Este último conjunto, composto por 12 monumentos, localiza-se entre o concelho de Abrantes e Tomar, nas duas margens do Rio Zêzere.
À excepção da anta 5 da Jogada, que se localiza numa vertente direccionada para o Rio (figura 10), todos os outros monumentos se encontram mais próximo de ribeiras e afluentes, implantando-se contudo em zonas elevadas de grande visibilidade.
Morfologicamente, também o monumento 5 da Jogada se destaca em relação aos outros monumentos que estruturalmente poderão ser descritos como monumentos dolménicos com câmara simples de pequenas dimensões, corredor curto e laje de cobertura única.
Em termos cronológicos não podemos apontar dados seguros sobre o processo evolutivo deste tipo de culto ao longo dos tempos, sobretudo devido à falta de datações radio-carbónicas e destruição de alguns destes monumentos dos quais não contemos informações significativas.
A datação relativa do material encontrado e a possível existência de enterramentos de fossa aponta-nos, à primeira vista, para uma ocupação mais tardia dos monumento 5 da Jogada em comparação com os monumentos de câmara e corredor implantados nas suas imediações e de uma provável antiguidade dos monumentos do Vale do Chãos em relação aos da Jogada e do Val da Laje.
Em alguns monumentos (Anta 1 do Val da Laje) observa-se uma ocupação contínua ou faseada do Neolítico à Idade do Bronze.
Conclusão:
Num primeiro balanço muito genérico podemos apontar a seguinte tipologia para o Alto Ribatejo:
• Estruturas de dólmen com corredor e câmara de grandes dimensões localizados em zonas planas (Anta 1 e 2 do Rego da Murta, Alvaiázere).
• Estruturas de dólmen com corredor localizados em zonas elevadas controlando uma vasta área de visibilidade, sobretudo direccionada directamente para grandes cursos fluviais (Anta das Pedras Negras).
• Estruturas de fossa (figura 9), sob mamoa em terra com associação de alguns monólitos a afloramentos e com visibilidade directa para grandes cursos fluviais (o monumento 5 da Jogada).
• Estruturas de dólmen com corredor localizados em zonas elevadas sem visibilidade directa para cursos fluviais (Anta 1 do Vale da Laje, Anta 1 e 2 de Vale do Chãos, Anta 1, 2, 3 e 4 da Jogada).
A anta 2, 3, 4 e 5 do Val da Laje localizam-se em cotas inferiores aos outros monumentos, mas mantendo alguma visibilidade apesar de não terem uma relação directa com o Rio Zêzere, contudo por se encontrarem completamente destruídas, não nos permitem retirar ilações sobre a sua estrutura arquitectónica.
A implantação dos monumentos apesar de diversificada em alguns casos, sobretudo pelas diferenças de relevo, encontra-se a uma cota entre os 130 e os 230 metros de altitude e na sua maioria relacionadas ou muito próximas de cursos fluviais.
Apesar das constantes prospecções realizadas um pouco por toda a região, contam-se, até este momento, por muito poucos os monumentos megalíticos presenciados no Alto Ribatejo, podendo as suas funcionalidades terem sido substituídos por outro tipo monumentos ou práticas.
Bibliografia
Cruz, Ana R. E Luíz Oosterbeek, 1998, Anta 1 do Rego da Murta, in Techne, vol. 4, 92-102.
Cruz, Ana R., Oosterbeek, Luíz, 1998, Relatório da Campanha Arqueológica de 1997, in TECHNE, Revista da Arqueojovem, nº 4, 61-78.
Cruz, Ana R., Oosterbeek, Luíz, 1998, Relatório da Campanha Arqueológica de 1997, in TECHNE, Revista da Arqueojovem, nº 6, 75-8.
LEISNER, Vera, 1998, Die Megalithgraber der Iberischen Halbinse/ von Vera Leisner/ Deutsches Archaologisches Institut, Abteilung Madrid .- Berlin: Walter de Gruyter, (Madrider Forschungen; 1). Der Westen/ Aus dem NachlaB zsgest. Von Phililine Kalb


Mapa 1 – Imagem vectorizada da região do Alto Ribatejo com a localização dos monumentos megalíticos conhecidos.


Figura 1 - Anta 1 do Rego da Murta, Alvaiázere. Vista se S-W.

Figura 2 – Imagem vectorizada dos desenhos de planta das estruturas escavadas na Anta 1 do Rego da Murta

Figura 3 – Desenho de alguns fragmentos dos vasos cerâmicos da Anta 1 do Rego da Murta, Alvaiázere.

Figura 4 – Desenho de material lítico proveniente da Anta 1 do Rego da Murta, Alvaiàzere.

Figura 5 – Desenho de material lítico e ósseo proveniente da Anta 1 do Rego da Murta, Alvaiàzere.

Figura 6 – Imagem vectorizada do levantamento do corte estratigráfico W-E da Anta 1 do Rego da Murta.

Figura 7 – Monumento 5 da Jogada

Figura 8 – Corte estratigráfico do Monumento 5 da Jogada

Figura 9 – Pormenor da fossa do monumento 5 da Jogada.

Figura 10 – Vista para o Rio Zezere do Monumento 5 da Jogada.

A emergência das sociedades agro-pastoris: Análise teórica do conceito de neolítico

Resumo

Desde o século passado que se tenta compreender a origem do processo de neolitização; essas interpretações são em muito fruto do seu tempo e das ideologias em vigor.
Neste artigo pretendemos analisar a evolução, em termos teóricos, do conceito de Neolítico e dos vários modelos criados para explicar a origem da domesticação das plantas e dos animais. Optamos por examinar a evolução destes conceitos através de uma visão diacrónica, relacionando as várias perspectivas teóricas com a corrente epistemológica e com a época em que estão inseridas.

Introdução


No mesmo período em que se dão as grandes transformações climáticas que caracterizam o final do Pleistoceno e o início do Holoceno, o modo de vida humano altera-se profundamente.
Quer seja uma alteração violenta ou uma transformação gradual, este processo parece ser detectado arqueologicamente por um conjunto de elementos. O conceito de Neolítico surge associado a esta mudança.
Contudo esta definição tem evoluído ao longo do tempo.
O termo foi criado por Lubbock, em 1865, para expressar o aparecimento do polimento, como uma nova técnica no fabrico de instrumentos de pedra. A divisão do esquema das idades de Thomsen não diferenciava as duas formas de fabrico dos instrumentos de pedra que as investigações arqueológicas haviam revelado. Lubbock, baseando-se nos aspectos tecnológicos (a pedra talhada e a pedra polida) que diferenciava as duas fases, propôs o termo de Paleolítico, para a primeira, e Neolítico, para a segunda.
Compreende-se, assim, que etimologicamente neolítico derive do grego neos, que significa novo, e lithos, que significa pedra, a nova pedra desenvolvida para uma melhor adaptação às novas condições de vida.
Neolítico objectivava-se como uma facies tecnológica, a pedra polida. Esta necessidade de identificar fósseis directores para cada período cronológico, é o resultado do aproveitamento realizado pela arqueologia (científica) dos métodos da geologia. Importava construir uma ciência, um método e um quadro cronológico coerente. O machado polido era o paradigma do Neolítico.
Contudo esta designação viria a alargar-se e a integrar todo um conjunto de fenómenos para além do polimento da pedra, nomeadamente o aparecimento da cerâmica, a habitação em povoados mais ou menos permanentes, e principalmente a domesticação dos animais e o cultivo das plantas.
As primeiras teorias centram-se num evolucionismo exagerado, considerando, na opinião de Juan Vivente (1988), dois conceitos fundamentais: a noção que são as características psíquicas e intelectuais humanas que permitem a evolução e que existe uma superioridade inerente da estratégia de produção de alimentos sobre a caça-recolecção. Assim, o neolítico aparecia como uma fase progressiva para a humanidade (idem, pág. 18-19).
A este evolucionismo excessivo associa-se, posteriormente, o conceito de difusionismo defendido pela escola histórico-culturalista. O neolítico passa, desta forma, a ser entendido como um estádio evolutivo na humanidade que terá sido inventado num único lugar (Próximo Oriente) e a partir daí difundido pelo resto do mundo.
Gordon Childe adopta o termo "Revolução Neolítica" para designar este conjunto de alterações entendendo-a como "a separação entre a selvajaria e a barbárie" (1960, 41) ou seja uma nova etapa da História da Humanidade. Esta "revolução" integra a agricultura e a domesticação de animais como os pontos principais no fenómeno da neolitização.
Desta forma, as teorias que se debruçam sobre esta problemática vão, progressivamente, destacar a domesticação, quer vegetal, quer animal.
No nosso estudo o conceito de agricultura é vista segundo a definição de Hans Helbaek (1970: 194 citado por Redman, C. 1978: 91): um conjunto de actividades que afectam a ecologia natural ao potenciarem o crescimento selectivo de uma ou mais espécies de plantas.
Concordamos com Redman quando explica a agricultura não como uma inovação tecnológica, mas como toda "uma série de novas relações formadas entre pessoas, terra, plantas e animais" implicando "novas relações estruturais entre os participantes" (1978: 91).
É esta nova relação que vem sublinhar o conceito de Neolítico.
É notória a evolução do seu significado, bem como clara a diferença que separa uma designação baseada em aspectos materiais, de outra que abarca uma perspectiva evolucionista em termos sobretudo socioculturais.

1. O evolucionismo do século XIX

Tal como foi mencionado anteriormente, o termo Neolítico surgiu para designar uma nova técnica e uma determinada categoria de artefactos arqueológicos - a pedra polida - integradas dentro de uma perspectiva que visava identificar facies tecnológicas à imagem dos fósseis directores da geologia.
Inserido dentro de um contexto evolucionista que se contrapunha a uma visão teológica da história, o conceito de neolítico, partindo das provas materiais arqueológicas, é criado no sentido de explicar a evolução humana para um patamar mais "civilizado".
Esta visão evolucionista parte do princípio que a Humanidade se vai desenvolvendo em estádios progressivos. O Homem possui uma tendência natural para melhorar as suas condições de vida. Como tal o neolítico é visto como um estádio mais avançado que a estratégia de caça - recolecção.
Já Darwin, em 1875, abordou o problema do aparecimento da agricultura partindo do princípio que o factor critico determinante para este fenómeno seria o "saber" (Binford, L. 1983: 243).
A prática da agricultura era vista como uma consequência da aquisição de conhecimentos por parte do Homem, na sua caminhada inevitável para melhorar as condições de vida. A selecção natural era a principal força interveniente na domesticação, resultando na acção imediata do Homem na transformação da Natureza, através da adopção de uma manobra de controle na alimentação (Rindos, D. 1984: 2). Era o liberalismo no seu auge.
Os estudos de Lewis H. Morgan (1872) também se enquadram dentro desta perspectiva evolucionista, sendo este autor, talvez o mais representativo deste tipo de visões, pois terá sido o primeiro a lançar os fundamentos do evolucionismo antropológico, dividindo a História em três grandes fases: selvajaria, barbárie e civilização - caracterizadas pelas técnicas de subsistência. A domesticação, que mais tarde caracterizaria o neolítico, integrava-se na segunda fase.
As afirmações morganianas foram contestadas por E. Hahn, A. Von Humboldt e F. Ratzel, que consideravam que a economia pastorícia e a agricultura teriam de ser vistas sempre interligadas (Vilaça, R. 1988: 14).
Durante o século XIX, particularmente na sua segunda metade, o Neolítico era encarado como um fenómeno rápido que foi difundido a partir de um único lugar inventivo – O Próximo Oriente - estando de acordo com a teoria teológica que integrava o Jardim do Edén entre os rios Tigre e Eufrates.
Candolle, em 1884, fez um estudo das possíveis localidades geográficas com as condições que considerava serem necessárias para o aparecimento da agricultura, destacando como potenciais lugares o vale do Eufrates, a Sérvia, a Grécia e a Anatólia (Redman, C. 1978: 89).
O objectivo era compreender a origem das plantas cultivadas. Desta forma procedeu a uma recolha de dados sobre as condições necessárias ao crescimento de determinadas espécies. Seriam essenciais cinco características para identificar o centro originário de determinada planta:

 A existência no local da espécie em estado selvagem.
 Clima temperado.
 Temperaturas elevadas em determinadas alturas do ano, acompanhadas por períodos secos.
 Estabelecimento local do Homem.
 Recursos - pesca, caça e recolecção - insuficientes para suportar as comunidades locais.

Com estes factos chegou à conclusão que o trigo cultivado teria tido a sua origem nas zonas da Mesopotânia, mais concretamente no vale do Eufrates, o centeio na Sérvia, Grécia e Anatólia, e a cevada na Ásia Ocidental, na área do Mar Vermelho, Mar Cáspio e Cáucaso.
Tal como outros autores identificou o Próximo Oriente como um dos centros mais antigos da domesticação.
Como observamos na segunda metade do séc. XIX, o Neolítico era abordado dentro da perspectiva de um evolucionismo unilinear, isto é a consideração de uma origem única deste fenómeno que depois se expandiria para os outros territórios.

2. Modelos teóricos do século XX

No século XX, o evoluir da Arqueologia enquanto ciência apontou para outra direcção.
A partir dos anos vinte, estas teorias evolucionistas foram definitivamente banidas e substituídas, segundo Redman (1978), por dois grandes grupos: teorias ambientais (Teoria do Oásis de Gordon Childe; Teoria das Zonas Nucleares de R. Braidwood e Teoria da Modificação Neo-climática de H. Wright) e teorias demográficas (Teoria da Pressão Populacional de E.Boserup, Smith e Young e Teoria das Zonas Marginais de Binford e Flannery).
Concordamos com esta divisão pois parece-nos colocar em evidência os dois aspectos fundamentais destas teorias: o ambiente e a demografia.
Assim se demonstra a clara influencia dos pensadores funcionalistas e posteriormente, na sua linha mais avançada, dos processualistas.
As primeiras explicações, fundamentadas no determinismo, consideravam que uma alteração radical no clima teria conduzido a uma mudança brusca no comportamento cultural.
Esta característica era atribuída ao final da última glaciação que, provocando uma subida da temperatura, teria estimulado a introdução da agricultura e as consequentes alterações a nível tecnológico e cultural.
Tal suposição, assegurada até recentemente, assumia que a substituição de um regime climático frio por um temperado teria sido, numa tentativa de melhor adaptação ao meio, o principal incentivo para a modificação do sistema de caça-recolecção por uma existência, cada vez mais, baseada na vida agrícola.
As hipóteses demográficas, por seu lado, centram-se em estudos relacionados com o desenvolvimento populacional, focando as suas explicações na actividade humana. Segundo estes pressupostos, o aparecimento das diferentes características do neolítico deveu-se a uma exigência humana, que teria sido provocada pelo aumento demográfico (Redman, C. 1978).
Contudo, a estas visões devemos acrescentar um outro conjunto, integrando-as noutros dois tipos de estudos, a que designamos por Teorias Sociais, que tendem a encontrar nas relações humanas a explicação para o aparecimento do Neolítico e as Teorias Perceptivas, que procuram interpretar a forma como o homem percepciona o espaço. Segundo estas, existe uma diferença radical entre a mentalidade do caçador e a do agricultor. Esta desigualdade verificar-se-ia arqueologicamente por um conjunto de vestígios que marcam de forma distinta o meio, devendo interpretar-se tais marcas, ou seja símbolos, inscritos na paisagem. É, no fundo, uma aplicação da história das mentalidades à arqueologia.


2.1 Teorias Ambientais

Uma das primeiras teorias ambientais explicativas para a emergência das sociedades produtoras foi a defendida por Gordon Childe, que veio acrescentar aos pressupostos evolucionistas uma visão materialista.
Childe defendeu o conceito de "revolução", para designar o desenvolvimento de novas tecnologias, que originavam novas formas de vida, em termos sociais e/ou culturais.
A noção de "Revolução Neolítica" contudo "não implica uma mudança brusca de carácter catastrófico" (Childe, G. 1960: 42).
Este termo refere-se à "fronteira entre a selvajaria e a barbárie" que engloba uma nova economia de produção baseada na domesticação de plantas e animais, nas artes da olaria, da fiação e da tecelagem, envolvendo também a sedentarização e a emergência de um novo tipo de organização social (id. 1960, 41 e 42).
Redefine-se, como tal, o conceito de Neolítico, de forma a indicar não só a presença de instrumentos de pedra e cerâmica, mas também a existência de comunidades produtoras de alimentos.
Deste processo resultaria um aumento demográfico, do qual Childe parte para uma analogia com a Revolução Industrial, identificando estes dois fenómenos como etapas culminantes de um processo gradual já antes iniciado. As inovações tecnológicas são resultantes de um processo de dialética, em que o objectivo máximo é a adaptação biológica, que por sua vez entra em contradição com as formas de vida preexistentes, levando a reajustes revolucionários que determinam novas inovações (Vicente, 1988, pág. 25). É, de facto, o combinar de uma visão evolucionista unilinear, com uma visão materialista, traduzida no conceito de "revolução" como factor impulsionador de desenvolvimento e progresso.
Childe, abandona a noção de etapas evolutivas, presente no sistema das três idades (Pedra, Bronze e Ferro), para interpretar os principais avanços da história como revoluções, de carácter sobretudo económico.
Explica a origem do neolítico como consequência das transformações climáticas operadas no final do Pleistoceno. "A oportunidade para a revolução foi a crise climática que fechou o período Pleistoceno; (1942, pág. 63)"
Este determinismo ambiental manifesta-se na Teoria do Oásis (já esboçada em 1908 por Pumpey e em 1924 por Newberry), segundo a qual, após uma dessecação progressiva de certas zonas do Próximo Oriente, caracterizada pelo desaparecimento das chuvas de Verão, a existência só seria possível em locais bastante irrigados, obrigando todos os seres vivos a concentrarem-se junto a oásis e, desta forma, a permanecerem neles como única hipótese de sobrevivência. Este contacto constante, entre homens, animais e plantas, teria favorecido a aprendizagem da domesticação. Como afirma Childe à "medida que os animais propícios foram ficando encurralados nos oásis pelo deserto, os homens podiam estudar os seus hábitos e em vez de os matarem de surpresa, podiam subjugá-los e torná-los seus dependentes" (1954: 49). O alargamento das áreas de cultivo e a utilização dos excrementos como fertilizantes, bem como a exploração dos produtos secundários (carne, leite, lã), contribuíram para o desencadear do processo de "neolitização".
Considerando que a cevada e o trigo foram os únicos cereais cultivados pelos primeiros agricultores e deparando com a inexistência destes na Europa num estado selvagem, salvo em algumas situações esporádicas, concluiu que teriam sido importados do Sudoeste da Ásia, onde existiam em grande abundância.
Seria mais um dado que confirmava que não teria sido a Europa, mas sim o Próximo Oriente, o local de origem da domesticação.
O trigo e a cevada, bem como as ovelhas e as cabras, teriam sido introduzidos por imigrantes agricultores e pastores (Childe 1960: 47, 51). Esta necessidade de imigrar encontrava-se associada ao excesso de exploração do solo, não acompanhado de um sistema de reposição natural que, como tal, se esgotava rapidamente, impondo um certo nomadismo na busca de terras férteis que garantissem uma nova produção. A procura de terrenos virgens, associada a um alargamento do terreno de cultivo provocado pelo rápido aumento demográfico, seriam os grandes responsáveis pela difusão neolítica (Childe, G. 1960: 46,47).
É um exemplo claro de uma explicação difusionista. O difusionismo encara a transmissão de uma ideia de uma cultura para outra tendo em conta, sobretudo, um aspecto: a migração, um movimento de um ou mais elementos portadores dessa mesma ideia. Segundo o pensamento difusionista, a invenção encontra-se condicionada à transmissão de ideias e está dependente da distancia e do tempo em que é feita – quanto mais distante do seu lugar de origem encontrarmos uma ideia, maior lapso temporal terá decorrido.
Este difusionismo encontra-se ligado à visão histórico-culturalista dominante na época, na qual se dá particular importância aos objectos. Pretende-se determinar-lhe as funções e classificá-los, reduzindo a diversidade à unidade de modelos. O Histórico-culturalismo explica a evolução cultural pela difusão de ideias ou técnicas, e circunscreve-se "ao estudo funcional e tipológico da cultura material e ao exame da vida económica, sem ter afrontado a análise dos aspectos sociais, políticos e ideológicos das culturas” (Alarcão, J. 1996: 10).
Uma cultura é, como tal, composta de traços que a caracterizam, desde os artefactos às formas de parentesco ou crenças religiosas que, por sua vez, se exprimem por ideias e que são partilhadas por todos os membros.
A Teoria do Oásis é, como tal, testemunho de uma determinada época e de uma determinada personalidade - Gordon Childe - que soma à visão histórico-culturalista uma componente marxista.
Da visão histórico-culturalista observa-se o evolucionismo unilinear, o determinismo ambiental, a preocupação pela análise da cultura material e a redução a círculos culturais, fontes de inovação irradiada pelo difusionismo.
É este determinismo ambiental que prevalecerá no estudo da problemática do Neolítico, omitindo-se, em contraposição, a importância da inovação tecnológica para a evolução.
Esta ênfase no avanço técnico é característica de um aspecto teórico mais materialista. Esta faceta era fundamental para as mudanças sentidas noutros sectores. Seriam as inovações tecnológicas o principal móbil de avanço e progresso.
Um dos seguidores da Teoria do Oásis foi Arnold Toynbee, defendendo a tónica desafio-resposta nos desenvolvimentos culturais, que se assemelha à tese e antítese da dialéctica hegueliana, defendida pelos marxistas. No caso do neolítico, o desafio teria sido a dessecação ocorrida no final do Pleistoceno, a reacção a mudança de habitat encaminhada para uma melhor sobrevivência.
Outros investigadores discordavam das explicações de Childe. Carl Hempel, seguindo os pressupostos processualistas, designou a teoria do oásis como um ”esboço de explicação” (Binford, L. l983 b): 244) por não ter por base dados arqueológicos concretos.
Butzer, Van Zeist, Andrews e Wright demonstraram, através de estudos paleobotânicos, nunca se ter verificado a desertificação descrita por Childe (Vilaça, R. 1988: 15).
Contudo, a maior parte dos investigadores estava convencido que as mudanças climáticas teriam sido a principal razão senão a exclusiva, na invenção do processo de domesticação (Redman, C. 1978:95).
Assim, revê-se o quadro cronológico, mantendo as designações anteriores mas fazendo-as corresponder a culturas arqueológicas.
O determinismo ambiental também se encontra presente nos estudos de Peake e Fleure (1927) ao proporem a existência de zonas naturais de habitat que se caracterizavam por: áreas restritas de modo a evitarem a migração; que não fossem densamente florestadas; que possuíssem uma alternância entre estações secas e húmidas e que possuíssem a presença de animais selvagens. Estas zonas não coincidiam nem com os desertos, nem com os oásis ou as margens dos grandes rios como foi advogado por Childe.
É dentro deste pensamento que, em 1948, Braidwood dá início a um grande projecto interdisciplinar na escavação da cidade de Jarmo, no Curdistão. O objectivo era contrastar empiricamente a proposta de desertificação inerente à "Teoria do Oásis", bem como comprovar a hipótese de Peake e Fleure, segundo a qual a domesticação teria tido a sua origem em zonas específicas no Crescente Fértil.
As investigações de Braidwood refutaram a hipótese de Childe sobre a dessecação e confirmaram a origem da domesticação em zonas naturais de habitat. Estas zonas estavam inseridas na extensa região entre Zagros, a Este e Tauro, a Norte bem como as cadeias montanhosas do Líbano e Antilíbano a Oeste, servida pelos afluentes do Tigre, no Kurdistão e do Eufrates, na Turquia. De uma altitude média entre os 300 e os 1.500 m, com um clima de extensos Verões secos e quentes e com um grau de húmidade próximo dos 500 mm, possuíam todas as condições para a emergência da domesticação.
Para a formulação da sua teoria - ”teoria dos níveis culturais” - Braidwood baseou-se em dados arqueológicos extraídos, entre 1948 e 1955, da estação de Qalat Jarmo.
A sua equipa continha, para além de arqueólogos, um botânico e um zoólogo ( que chegaram à conclusão que os habitantes de Jarmo se alimentavam exclusivamente de animais selvagens) bem como um geólogo (que concluiu a inexistência de uma brusca mudança climática desde hà 12 000 anos na região do Crescente Fértil) (Redman, C. 1978: 96).
A temperatura e o grau de humidade proporcionavam excelentes condições ao desenvolvimento de plantas com que o homem contactava diariamente, o mesmo se passava com as espécies animais selvagens. Seria uma região com um ambiente natural que incluía uma variedade de espécies preparadas para a domesticação.
Durante anos o homem conviveu, experimentou e aprendeu a domesticar. Este período da aprendizagem foi designado por Braidwood de "agricultura incipiente" (Redman, C. 1978: 97).
Outro elemento importante teria sido a existência de novos elementos culturais e tecnológicos que melhorariam a capacidade produtiva e de armazenagem. Desta forma, "as transformações que levaram à economia de produção deram-se quando certas comunidades humanas atingiram um determinado limiar de especialização e de desenvolvimento que Ihes permitiu, num salto qualitativo, explorar novas possibilidades favoráveis do meio" (Jorge, V. O. 1983: 12), quer isto dizer que a teoria dos níveis culturais compreende para a origem da agricultura a existência de um ambiente favorável, de plantas e animais preparados e com características favoráveis para poderem ser domesticados e um certo desenvolvimento tecnológico e cultural. Os locais ideais para o processo de transformação, como já foi dito, seriam os flancos montanhosos do Próximo Oriente, em particular o sopé e os vales de baixa altitude entre as montanhas do arco Zagros – Tauro, que continham solos que podiam ser facilmente irrigados e onde a temperatura não era tão elevada como nas planícies aluviais.
Braidwood considerava que o conhecimento era um factor limitativo, e que na constante convivência com o ambiente que o rodeava, o Homem aprendeu a manipulá-lo em seu proveito. Após uma aprendizagem, tornar-se-ia produtor ou criador daquilo com que se encontrava em contacto.
Esta ideia de "assentamento" era baseada no argumento de que "a domesticação resultava de um processo prolongado de aprendizagem, de um lento acordar da mente humana para as possibilidades de manipulação oferecidas pelo meio em que vivia" (Binford, L. 1983: 246).
No entanto, vários eram os contra-exemplos etnográficos, pois em certas zonas onde o Homem poderia ter produzido algo não o fez. Para alguns investigadores estes casos davam-se por pura ignorância, ou incapacidade de aprendizagem. Outros, ainda, sustentavam a ideia da existência de pequenos "jardins de paraíso".
Braidwood, no entanto, considerava que a origem das alterações culturais não é meramente uma resposta às modificações ambientais, mas sim à interacção entre os padrões de adaptação, da cultura e do meio.
Embora os dados recolhidos por Braidwood tenham sido contestados, as suas ideias vingaram, e muitos dos modelos teóricos posteriores possuem uma clara afinidade com a teoria dos níveis culturais.
De facto trata-se de uma análise crítica dos dados ao avaliar a consistência dos modelos. Podemos então considerá-lo processualista, ao tentar comprovar a validade de teorias contrastando-as com os dados, num claro modelo hipotético-dedutivo.
Wright, em 1968 e 1976, desenvolveu uma proposta similar à teoria dos níveis culturais de Braidwood, mas reconhecendo a existência de uma modificação climática por volta de 9.000 a.C.
Tal como Braidwood, os seus estudos centraram-se na montanha de Zagros, um local atractivo para todos os seres vivos. A melhoria das condições ambientais não afectou os habitats dos animais; contudo o mesmo não se passou com as espécies vegetais, permitindo que as gramíneas (antepassadas do trigo e da cevada) se espalhassem por grandes extensões de solo, bem como os animais que delas dependiam.
A teoria da "modificação neo-climática", como o próprio nome indica, baseia-se na transformação ambiental como principal factor de motivação. Este novo ambiente, comprovado sobretudo por análises palinológicas, caracterizava-se por uma temperatura quente e húmida, proporcionando um clima mais temperado e com estações mais variadas que permitiu a passagem da estepe com Artemísia do Pleistoceno final, para uma floresta aberta de Carvalhos e Pistácios.
Os Invernos, menos severos, permitiram ao homem sair da sua habitação e alimentar-se sem ter necessidade de criar reservas e acabar por perceber de que as sementes que atirava para as lixeiras brotavam nos anos seguintes. O contacto com os animais, por seu lado, propiciou um clima de ternura e afecto, em particular com os mais jovens.


2.2 Teorias Demográficas

A partir dos anos 60, foram lançados novos modelos denominados de "argumentos demográficos", defendendo que o crescimento populacional teria tido um papel fundamental, não só no processo de inovação tecnológica, mas também no desenvolvimento de formas mais complexas do sistema sócio - político.
A introdução na arqueologia da teoria dos sistemas, pela escola processual, levou a que se tivesse em conta as transformações culturais como um processo multicausal. Esta teoria considera a cultura (sistema) como um todo feito de partes (subsistemas), que tendem para o equilíbrio (homeostase): se um subsistema se altera, os outros subsistemas tendem a modificar-se para que o equilíbrio seja novamente reposto (Alarcão, J. 1996 pág. 12).
Como consequência, a investigação orienta-se para a descoberta das condições nas quais se produziram as alterações socioculturais.
Com o evoluir dos estudos etnográficos, a concepção da agricultura como forma superior de vida foi posta em causa. De facto verificou-se que em determinados contextos a agricultura exigia um investimento de energia maior que a despendida na estratégia de caça-recolecção, não implicando uma mudança imediata no nível de vida.
Estudos de arqueologia experimental de Jack Harlan, na Anatólia, demonstraram que a colheita de trigo selvagem, em termos alimentares, era superior à do trigo cultivado hoje em dia. Recolhendo apenas esta espécie de trigo, o pequeno grupo de recolectores conseguiria alimento para várias semanas. Essa mesma família usando uma foice lítica ou as próprias mãos teria colhido em três semanas mais do que aquilo que comeriam num ano.
Os estudos de Richard Lee sobre a tribo Bosquímanes !Kung demonstraram que a vida dos caçadores-recolectores não é uma luta constante pela sobrevivência (Redman, C. 1978: 90). Estas tribos, embora vivendo numa zona desértica, conseguem em seis horas diárias comida suficiente para três dias; aliás a agricultura mostrou-se uma tarefa árdua e ineficaz devido às condições climáticas já referidas. A caça-recolecção afirma-se, assim, como uma estratégia de enorme eficiência já que beneficia de dois tipos de recursos diferentes - a caça e a recolecção.
Também o etnólogo americano Marshall Sahlins estudando a economia das culturas actuais – Bushmen da Austrália e Bosquímanes da África do Sul – que vivem essencialmente da caça e recolecção, observou que estes se encontravam rodeados por um ambiente que lhes fornecia uma grande variedade e abundância de alimento, não se dedicando à armazenagem ou à agricultura porque a natureza lhes fornecia tudo aquilo de que necessitavam (Clark, R. 1980: 127,128).
Binford designou este tipo de teorias por ”teses do jardim do paraíso”. Este argumento refere-se a zonas com grandes potenciais para a prática agrícola, mas em que, por oferecerem uma grande abundância de alimentos, diversificados ou não, o Homem primitivo não terá visto necessidade de desenvolver a domesticação.
Logo, teria de existir um factor mais forte, e humano, para que se desse a emergência das sociedades produtoras.
Uma das respostas foi-nos apresentada por Boserup, em 1965, e posteriormente reforçada e desenvolvida por Smith e Young, em 1972, na defesa da teoria da "pressão populacional".
Boserup considera que o aumento demográfico, não só é uma variável independente, como foi o principal factor responsável pelas mudanças sócio-económicas ocorridas no final do Plistocénico e que culminariam no neolítico. Advoga que as inovações tecnológicas ocorridas e o próprio desenvolvimento da agricultura não foram decisões voluntárias para uma produção alimentar superior ao que era necessário, mas sim resultantes de uma "pressão" populacional, em que o seu crescimento foi exigindo uma série de esforços no sentido de que a produção alimentar acompanhasse o crescimento da população.
Smith e Young formularam as suas conclusões observando uma série de factores ambientais e culturais no Próximo Oriente e concluíram que durante os últimos 20.000 anos se assistiu a um aumento populacional. Periodicamente, este crescimento demográfico atingiu picos elevados que tornaram os tradicionais métodos de subsistência insuficientes e, como tal foi necessário procurar uma nova forma de garantir o sustento.
Como observamos, os estudos de Wright demonstraram uma clara melhoria das condições ambientais na região de Zagros, que favoreceram o crescimento da quantidade dos recursos vegetais disponíveis. Seria esta condição que estaria por detrás dos aumentos populacionais referido por Smith e Young. As populações iam crescendo até que fosse necessário um novo incremento alimentar, que por sua vez potenciava o aumento populacional, como um ciclo vicioso mas equilibrado. Contudo houve um factor destabilizador deste ciclo – o sedentarismo – que terá surgido devido às necessidades sentidas pelas mulheres aquando do parto, e pelas pessoas mais idosas, provocando um tal aumento demográfico, que se tornou necessária a adopção de um novo método – a plantação artificial de cereal.
Neste caso a domesticação sucedeu à sedentarização. Contudo, segundo aquilo que podemos observar em algumas estações arqueológicas, a agricultura não vem associada à sedentarização. Na maioria das vezes as aldeias só aparecem num momento mais avançado, sendo os primeiros habitats instáveis e pouco duradoiros (Hernando, A. 2000: 385)
A par das teorias baseadas em pressões populacionais, surge a Teoria das Zonas Marginais sustentada por Binford, em 1968, e retomada por Kent Flannery, em 1969.
Binford sugere que a origem da agricultura, no Próximo Oriente, se explicaria pelas cíclicas pressões demográficas nas zonas de melhor ambiente e habitat, que não tendo sido acompanhadas pelo crescimento dos recursos alimentares acabariam por desencadear todo o processo de domesticação.
Este desequilíbrio terá provocado uma migração do centro para a periferia, permitindo contactos com indígenas não tão sedentários e com ambientes menos favorecidos, que incentivariam a criação de inovações tecnológicas e culturais.
O resultado deste crescimento demográfico advém de a maioria dos grupos do mesolítico habitarem nas proximidades das zonas costeiras e do tipo de exploração e variedade de fontes de aprovisionamento alimentares que daí obtinham.
Binford considera que no final do Pleistoceno se vivia num sistema de equilíbrio, mudando de uma estratégia predominante de caça grossa para outra de médio ou pequeno porte, baseada principalmente em invertebrados e plantas, num sistema estável e nutritivo de acordo com as várias estações (Redman, C. 1978: 101).
O tipo de exploração de "largo espectro" permitiu aumentar a densidade populacional actuando ao ponto de criar um desequilíbrio no ecossistema que era resolvido com mudanças culturais numa tentativa de repor a harmonia.
A origem da agricultura centra-se exactamente neste problema. Foi a resposta encontrada para o desequilíbrio entre o aumento da densidade populacional e a redução da área óptima de exploração, provocada pela subida dos níveis das águas do mar, no final do último glaciar.
Segundo Binford devemos compreender, no estudo dos possíveis efeitos nas mudanças da estrutura demográfica, dois tipos de sistema populacional: "Sistema de população fechado" – o equilíbrio é estabelecido por mecanismos internos, isto é existe uma tentativa de controlo de natalidade em relação com o número de óbitos. "Sistema de população aberto" – não há controlo de natalidade, a expansão demográfica resulta na construção de novos campos ou migração de elementos individuais (Binford, L. 1968: 329, citado por Redman, C. 1978: 102).
Binford acredita que no Próximo Oriente existia uma relação entre grupos doadores de indivíduos por migração e grupos receptores desses mesmos indivíduos. "Uma zona marginal existe onde há uma diferença em grau de sedentarismo entre duas unidades socioculturais dentro de uma àrea geográfica restrita, criando uma zona de tensão na qual as colónias das unidades mais sedentarizadas periodicamente interompem o balanço de equilíbrio de densidade das menos sedentarizadas" (Redman, C. 1978, 102).
Flannery, usou a teoria da zona marginal, como exemplo de hipótese para a emergência da domesticação nas Montanhas Zagros, em Ali Kosh, por considerar que tinham condições para o desenvolvimento de várias espécies de plantas e animais selvagens. Com o aumento da população desde à 20.000 anos, promovida pela revolução de espectro amplo (como ele próprio a designou), e com a sedentarização cada vez mais estabilizada, começaram a surgir grupos de indivíduos que ocuparam as zonas marginais transportando, de Ali Kosh, os animais e sementes de plantas para locais menos favorecidos (Redman, C 1978, 102).
De acordo com estes dois autores (Binford e Flannery) a introdução da agricultura foi uma tentativa para superar a crise de falta de alimento provocada pela entrada de um grupo de pessoas numa zona de tensão, que não tendo as condições das ”zonas óptimas” (campos extensos povoados de plantas e animais selvagens), tentaram reproduzi-las artificialmente. Para essa recriação estabeleceram movimentos de grãos de cereais e animais da região natural para o novo habitat, que logo elevaram a uma maior produtividade e variedade de espécies.
Mais tarde, Binford, retoma esta problemática reformulando novos pensamentos, opiniões, conceitos e questões. As ideias que Binford advoga na defesa da origem da agricultura inscrevem-se sobretudo numa metodologia empírica, descrevendo para o estudo dos povos primitivos a verificação do que acontece com os povos ainda existentes que se assemelham, na sua forma de viver, aos nossos antepassados.
Segundo este investigador, o pensamento de que o "Homem procura evitar as deslocações e deseja o sedentarismo" não está correcto (Binford, L. 1983 b): 254), pois os estudos etnográficos realizados demonstraram que certos povos não tinham qualquer tipo de aversão à itinerância. Era viajando que o Homem conhecia o que o rodeava. "Mantendo a observação de uma vasta extensão de território podia, mais facilmente, tomar as decisões mais acertadas quanto à procura dos recursos para a sua sobrevivência. Desta forma, o sedentarismo só lhes dificultaria a vida e em nada a tornava mais segura" (Binford, 1983 b), 254). Assim, as informações da vida itinerante eram extraordinariamente cruciais, pois delas dependia a sobrevivência do grupo.
Outro ponto que foca é que estas deslocações não eram motivadas "pela «ausência» de comida, mas sim pela sua «existência»" (Binford, L. 1983: 255). Isto quer dizer que o conhecimento de que em determinado lugar existiam determinados recursos, era uma condição favorável e segura para que o homem não temesse deslocar-se para outros locais; uma vez esgotada a alimentação, movimentaria--se para um sítio que, com conhecimento, lhes proporcionasse a abundância de alimento suficiente à sua sobrevivência. Por isso, para que um sistema se sedentarize, seria necessário que surgisse um "determinado conjunto de circunstancias que (...) tornasse esse tipo de informação desnecessário e que (...) fizesse que a deslocação no interior de um território na sua maior parte desabitado deixe de ser uma opção realista" (Binford, L. 1983 b): 255).
Teorias como as de Binford, Flannery ou Braidwood, entre outros, visualizam as sociedades por uma concepção sistémica da cultura, na qual se adapta por superação de um desequilíbrio num ou em vários dos seus sub-sistemas. Cada sistema cultural divide-se em vários subsistemas cuja função é adaptar o indivíduo ao meio ambiente, tanto físico, como social. Contrariam a tendência histórico-culturalista, que recorre a explicações de difusão ou migração, no estudo das transformações culturais, apresentando como principais factores as transformações ambientais e o crescimento demográfico.
Este tipo de pensamentos introduzem-se na corrente da “Nova Arqueologia” surgida nos EUA e que terá desencadeado mudanças importantes no seio da Arqueologia teórica ao aderirem ao movimento neoevolucionista, ressurgido na Antropologia por Steward e White.
Quer a visão sistémica da cultura quer o postulado da racionalidade económica do comportamento, ambas características desta nova corrente, estão bem presente nas explicações dadas, por estes autores, para a emergência da agricultura.


2.3 Teorias Sociais

Num outro tipo de corrente podemos introduzir as explicações de Barbara Bender. Esta autora baseia-se sobretudo em conclusões já retiradas por Sahlins (1972).
São postos em foco dois conceitos chave: "intensificação" e "interacção". Para a autora a questão deve ser examinada em termos de "porquê intensificação" em vez de "porquê domesticação" (Bender, B. 1978: 205). Ou seja a agricultura é uma questão de empenho. Mas o que leva a este empenho?
Integrando-se a autora dentro de uma perspectiva marxista a resposta não poderia ser mais clara: "Em última análise são as relações sociais que articulam a sociedade e dispõem o seu padrão evolucionário" (Bender, B. 1978: 218).
Bender critica os pressupostos sistémicos processualistas. Considera que os sistemas não devem ser considerados como homeostáticos. "Em lugar de sociedades em equilíbrio elas estão sempre num estado de formação" (Bender, B. 1978: 207).
A pressão demográfica não deve ser considerada como principal motivo, pois a demografia é o resultado de uma hierarquia de causas da qual a mais importante são as relações de produção.
Reaproveita o modelo de Sahlins, em que considera que o casal ("household") é a unidade básica de produção (Bender, B. 1978: 209).
Surge, assim uma nova palavra chave: "interacção".
O casal produz para o seu próprio uso. O objectivo é apenas reproduzir e não acumular riqueza. Contudo estas unidades não são auto-suficientes, e necessitam, como tal, de inscrever-se numa vasta rede de trocas de produtos. Estas redes funcionam de acordo com a reciprocidade defendida por Sahlins (1972) que, também vai ao encontro da opinião de Marcel Mauss. Tal exige uma produção excedentária de modo a cobrir as obrigações sociais. O conceito de "interacção" ganha, como tal, importância. O papel dos indivíduos dentro de um sistema é equitativamente importante, pois é por intermédio dos indivíduos, particularmente daqueles que detêm autoridade, que a necessidade de aumentar a produção é canalizada.
Para Bender, o poder de um indivíduo aumenta à medida que encarna novos papeis.
Segundo Meillassoux (1960) a autoridade pode residir num monopólio do conhecimento social, o que a leva a concluir que os mais idosos não só retêm este monopólio mas, através deste, ganham poder económico.
À medida que os meios de produção vão sendo controlados, certos indivíduos tomam o poder, tornando a sociedade menos igualitária.
O sedentarismo surge da recompensa criada pela fixação num determinado local, ligada à necessidade de criação de estruturas de armazenagem. Assim, o líder assume um papel de atracção e mediação das diferentes unidades dentro de um grupo, permitindo e promovendo o sedentarismo (Bender, B. 1978: 213).
Não só o trabalho, mas também a terra, ganham valor.
Torna-se possível, cada vez mais, controlar o acesso a determinados recursos. O controle pode, assim, estender-se a meios de produção. A competição social dentro das sociedades primitivas, tal como nas sociedades de classes, providencia um maior incentivo para a produção de excedentes.
A autora aponta para uma observação mais cuidada da complexidade social existente dentro das primeiras sociedades agrícolas.
Esta ideia, de que mesmo nas sociedades sem classes existem tensões sociais que são impulsionadoras da evolução e de novas formas culturais, está subjacente aos pressupostos marxistas.

2.4 Teorias Perceptivas

Nos últimos anos tem-se assistido a uma viragem do pensamento arqueológico no sentido de dar mais importância ao aspecto ideológico.
Um primeiro caminho trilhado invoca as teorias estruturalistas de Levi-Strauss, adicionando-as a uma visão materialista.
Exemplo disso são os trabalhos de Ingold (1980) e Criado Boado (1988).
Segundo Ingold, a transformação que o neolítico define caracteriza-se, sobretudo, pelo estabelecimento de uma diferente relação de produção entre o homem e o meio, na qual o solo se converte em recurso que se torna valorizado socialmente (Ingold, T. 1988: 93).
A partir de certo momento, ao contrário do caçador que possui uma visão aberta e móvel da paisagem, o homem passa a dar importância à limitação do território, que é visto com um sentido de utilidade ou de posse.
O que marca o início da verdadeira "revolução" será, então, a mudança das relações sociais de produção definidas por determinado tipo de pensamento.
Para Ingold "não existe uma descontinuidade discernível entre recolecção e cultivo, ou entre caça e pastorícia e as transições de um para outro podem ter ocorrido gradualmente e possivelmente em direcções reversíveis em muitos períodos e em muitas regiões. A busca das suas origens temporais e espaciais é portanto fútil" (Ingold, T. 1980: 91).
Criado Boado vem defender a existência de uma estreita relação estrutural nas estratégias de apropriação do espaço entre pensamento, organização social, subsistência e concepção / utilização do ambiente.
A mudança para novas práticas agrícolas supõe uma mudança do pensamento e do conceito de tempo e espaço.
O conceito de neolítico não tem sentido, pois a agricultura e a recolecção são duas estratégias conciliáveis dentro de uma mesma racionalidade cultural (Criado, B. 1995 citado por Hernando, A. 1994: 137).
A revolução neolítica dá-se mais tarde, significando uma apropriação da natureza.
Para este autor, o megalitismo surge como demonstração da mudança de mentalidade, na qual o espaço é apropriado e alterado pelo homem. Apenas uma sociedade com estas características poderia implantar elementos artificiais no espaço. Essa ruptura é também de ordem económica e social.
Hodder (1990), por seu lado, propõe um modelo onde atribui menos ênfase ao aspecto materialista.
Assiste-se sobretudo a uma reinterpretação das estruturas sociais e conceptuais já existentes. Tudo assenta numa vontade de controlar o selvagem como fonte de prestígio.
O autor chama à atenção de como a nossa linguagem vincula as casas com os processos económicos de domesticação e com os processos sociais de formação de unidades maiores e mais definidas.
A domesticação do indivíduo e da sociedade destina-se, no âmbito dum discurso de poder, a criar laços de dependência no interior das unidades sociais.
A domesticação, é assim, um discurso de dominação.
O sistema desenvolve-se em redor do conceito de domus. Esta palavra latina dá por sua vez origem às palavras "domesticação/domínio/dominação".
É a análise das características da domus (disposição interna dos objectos, construção e delimitação de áreas, relação com outras unidades de habitat e natureza) que permite descobrir as chaves do processo de mudança ideológica e social (Hodder,1990, citado por Hernando, G. 1994: 139).

Conclusão

Como podemos observar, as várias teorias que visam explicar o aparecimento do processo de neolitização buscam uma causa chave e primária, entendida como impulsionadora da origem dos principais aspectos destas novas comunidades.
Esta passagem para uma nova economia é, segundo alguns, ainda entendida como mais favorável que a anterior.
Contudo, cada vez mais, a comprovação dos dados arqueológicos e alguns etnoarqueológicos nos fazem entender o processo de neolitização não como um fenómeno progressivo, mas como uma nova acção prática introduzida a determinado momento. Para além disto, também recentemente, com a aplicação das novas tecnologias à ciência arqueológica, surgiram novas visões prometedoras, principalmente no que diz respeito aos Sistemas Adaptativos Complexos (SAC) (Carvalho, R. 1999; Cordell, L. 1972; Dove, D. 1984; Gumerman, G. J. e Koller, T. Q. 1995; Kohler, T. A., J. D. Orcutt, K. L. Petersen, and E. Blinman, 1986; Reynolds, R. G. 1986; Sabloff, J.A. 1981; Thomas, David H. 1972).
Os SAC são sistemas compostos por agentes que se vão adaptando à medida que o sistema avança complexificando-o.
A principal característica destes sistemas é o conceito de emergência. Este fenómeno ocorre quando se presencia que um conjunto de princípios simples desenvolvem fenómenos complexos.
Também, num estudo, de SAC, por nós realizado, através de uma simulação de um território virtual, onde interagiam agentes que desenvolviam as duas estratégias económicas (caça e agricultura), observou-se que a primeira se apresentava com uma maior eficácia, apesar de instável, ao contrário da segunda que, mesmo aparentando uma grande estabilidade, fazia dispender um maior esforço não compensado pelo factor tempo. A passagem de uma actividade para outra também não nos era explicada por um factor visível, mas por diferentes factores, na sua maioria invisíveis e casuais .
Também, é de salientar, que esta emergência do fenómeno agrícola ocorria sem qualquer alteração do espaço (clima ou outro), ou das regras de comportamento que definiam os agentes.
Outras conclusões que podemos retirar é a inexistência do "pacote neolítico", pois pressupunha que à prática da agricultura e da domesticação estivesse associada a cerâmica, a pedra polida, a sedentarização e um conjunto de novas ideias religiosas. Aquilo que os dados empíricos nos demostram é um conjunto de comunidades diferentes entre si que vão criando ou adoptando uma ou outra característica. Desta forma observamos grupos de caçadores-recolectores com a actividade do fabrico da cerâmica e/ou do polimento da pedra, ou ainda com algumas espécies domesticadas, e grupos que praticam uma economia produtiva, mas acerâmicos e/ou com habitats temporários, ou detentores de tecnologia epipaleolítica (Schuhmacher y Weniger, 1995: 87; Pallarés et alli, 1997: 36; Delibes 1997:407-8; Alonso Matthías y Bello Diéguez 1997; Criado y Fábregas 1989:685; Arnaud, M.1982:30 citados por Hernando, A. 2000, 385).
A origem deste processo no Próximo-Oriente e a sua difusão pela Europa, como ainda é defendida por alguns, começa a adquirir opiniões amtagonistas.
Segundo Almudena Hernando, entre outras contraposições que refutam a importação do neolítico, considera que não existe um foco Oriental para a cerâmica cardial, que os estudos genéticos contrariam a chegada maciça de agricultores à Europa no início do neolítico e que os estudos osteológicos demonstram uma continuidade da população desde o mesolítico até à Idade do Ferro (Hernando, A. 2000).
O aparecimento das características, que compõem o designado neolítico, quer de forma isolada, quer associadas entre si deverão, desta forma, ser explicadas pela Teoria da Acção Prática, ressurgida por Bourdieu (1990) na Antropologia, não nos esquecendo, contudo, de atender aos aspectos mais individuais, casuais e invisíveis (microaspectos) que tem sido menos prezados na arqueologia a favor de explicações mais globais.
A teoria da acção prática tem sido aplicada, como interpretação teórica, a um grande número de problemáticas socioculturais.
Esta axiomática assenta no pressuposto de uma relação entre estrutura e prática.
O indivíduo enquanto pessoa encontra-se inserido num determinado meio sociocultural. Apenas fala e age de acordo com aquilo que é.
Como tal, partindo de uma visão estruturalista, a acção apenas se pode enquadrar dentro do sistema em que ele próprio se encontra inserido. Tende como tal a reproduzir na acção a estrutura donde provém. No entanto, a nosso ver, podem sempre surgir novas acções indivuduais, fruto de imensas variantes, até mesmo casuais, que não dependem, nem se integram, directamente, na estrutura onde emergem, mas que são socialmente observadas e repetidas até se integrarem na cultura social do sistema.
É através da acção que se constrói o sistema. É a face visível da estrutura. Esta pode ser mesmo vista como um conjunto de acções.
O sistema tende a assimilar estas novas acções, que são entendidas dentro da concepção própria do sistema.
Se elas chegarem a um ponto em que se tornam comportamento comum, passam a caracterizar esse próprio sistema.
As novas acções passam a ser elas próprias estrutura. Porque a estrutura é construída no conjunto das acções.
Assim é a acção individual que determina a estrutura. É o tipo de comportamento adoptado que define e caracteriza o sistema.
Como tal a complexidade da emergência das sociedades agro-pastoris, poderá ser entendida como fruto de uma nova acção ocorrida em determinada altura.
Queremos dizer com isto que, segundo este novo pensamento e ao contrário do que referem alguns autores, não devemos pensar o Neolítico como um fenómeno importado (tese histórico-culturalista) ou resultante de um processo deterministico ambiental e/ou de uma pressão demográfica (pressupostos processualistas) ou ainda de interacções sociais (teoria marxista) ou de perspectivas percepcionistas, mas como um processo que mais do que uma simples passagem de informação, por via difusionista, ou qualquer mudança ambiental, social ou demográfica, emerge de uma estrutura através de uma nova acção.
A domesticação e a agricultura, ou qualquer inovação tecnológica, espacial ou sociológica são determinadas por essa nova acção.
Contudo esta acção poderia não se tornar a acção dominante. Tudo isso depende de factores imponderáveis. O sucesso apenas depende do contexto.
Partindo de um ponto de vista sistémico, sabemos que uma nova acção só vinga se for aceite pela estrutura em que se encontra inserida ou se a transformar.
Assim, para analisarmos as novidades englobadas no conceito de Neolítico, teremos de observar dois aspectos distintos: a estrutura donde emerge e a acção nova que se produz.
Para nós, não restam dúvidas de que não existe uma explicação global para o fenómeno de Neolitização, pois engloba demasiadas vertentes e inovações distintas entre si, e que podem ou não estar presentes em determinadas áreas espaço-temporais.
Devido a heterogeneidade das formas culturais, o conceito de Neolítico deve ser substituído, pois está já demasiado marcado. Devemos ter em consideração determinados fenómenos novos, a emergência de novas acções, novos habitus, que transformam a sociedade, mas que têm de ser estudados e compreendidos dentro do contexto em que emergem.

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A VERDADE DA CIÊNCIA: O DILEMA RACIONAL

Resumo:
Uma teoria, em arqueologia, é sempre fruto de discórdias e interpretações subjectivas. Como tal e com o avançar do tempo elas modificam-se, solidificam-se e desaparecem um pouco ao sabor daquilo em que se acredita.
Desta forma, pouco ou em nada estão relacionadas com a razão.
Estas poucas linhas, que apresento a seguir, são uma espécie de introspecção daquilo em que vamos acreditando.

Palavras-chave: Razão/Emoção; Arqueologia; subjectividade e Ciência

Na arqueologia, principalmente na pré-história, a falta de fontes de informação credíveis e as constantes hipóteses que criamos baseadas na dúvida ou numa coincidência, levam-nos a acreditar em teorias ou ideias que só vingam através da capacidade que detemos de convencer o próximo e a nós mesmos.
As teorias ressurgidas na arqueologia e mesmo na antropologia que emergiram com o tempo e ao sabor das ideologias são bem o exemplo disso.
A forma como os problemas teórico-científicos, da sociedade e da interacção de culturas são abordados e resolvidos dependem das circunstâncias em que emergem, dos meios impulsionadores e dos desejos dos intervenientes directos (Feyerabend 1991). Sendo assim, é impossível permanecer no tempo com os mesmos postulados.
Thomas S. Kuhn considera a existência de dois tipos de descobertas em ciência: as normais e as revolucionárias (1970:19). As primeiras originadas pela maturação histórica e científica; as segundas obtêm a sua génese no resultado de uma disputa entre paradigmas opostos – um pouco à semelhança da dialéctica de Hegel – na oposição de duas ideias, podendo uma nova teoria ser adoptada para resolver a crise.
Normalmente, uma vez que nos encontramos no interior da bola gigante da ciência, não nos é possível avaliar convenientemente as mudanças, os diferentes conceitos ou mesmo as diferentes percepções teóricas; e assim, vamos caminhando como que num jogo de afirmação ou negação às novas teorias que vão surgindo.
Todas estas teorias científicas, e principalmente as sociais, poderão ser enquadradas e entendidas como um conjunto de verdades. O mensageiro técnico ou o ditador teórico lança as bases da sua crença que, apoiadas num conjunto de elementos (tradições culturais, novas preocupações, modas, propaganda), lhe possibilitarão o sucesso, e assim vão crescendo e sedimentando-se. Normalmente aparecem vindas de outras ciências ou de explicações que surgiram hà uns séculos atrás, que, esquecidas num arquivo, regressam como guerreiros da paz, encaixando-se perfeitamente no patamar evolutivo das novas leis da ciência, resolvendo o dilema teórico.
Parece-nos que, para a maioria das pessoas, um sinónimo de razão/racionalidade será pensamento/verdade. Ora, aquilo a que assistimos é que para haver “progresso” é sempre necessário destituir a própria razão. Logo (e por esta lógica) destituímos a própria verdade. Isto acontece mais com casos mais concretos sobretudo relacionados com as ciências naturais, onde a razão parece ter mais alento. Na arqueologia, onde as certezas não abundam, as teorias vão-se atropelando umas às outras na tentativa de se aproximarem mais do que se pensa ter acontecido; no entanto a teoria predominante não significa a mais verdadeira, mas talvez aquela que adquiriu mais seguidores. Vejamos o caso do que aconteceu com a polémica instaurada aquando da apresentação da Origem das Espécies de Darwin. Os postulados em que se acreditavam na altura baseavam-se no Criacionismo. Darwin ao explicar a nossa ascendência, as constantes mutações evolutivas, bem como a teoria da selecção natural confrontou-se com toda a verdade acreditada até à altura. Darwin apoiava-se num pensamento racional de acordo com observações científicas por ele empregadas, contrapondo-se ao pensamento emotivo-dogmático da época; contudo a adesão foi lenta e nunca total; ainda hoje se discute na América a importância do criacionismo como corrente teórica para a compreensão da nossa origem como espécie. A existência destes casos pontuais vem reforçar a ideia de que a razão nem sempre vence, e por vezes nem será sempre aquela que se apresenta como a mais correcta, pois após o evolucionismo que dominou o século XIX, surgiram, que nem bola de neve, várias interpretações que, asseguradas por novas descobertas ou por novas ideias, disputavam o podium da verdade.
Este modelo de racionalidade terá tido a sua origem no século XVI no seio das ciências naturais, mas só no século XIX se terá estendido às ciências sociais emergentes. A metodologia científica e os princípios metodológicos racionais seriam as únicas formas correctas de conhecimento.
Este culto à razão, que no Ocidente é praticado quase como uma religião  veja-se por exemplo o tipo de arquitectura geométrica empregada que contrasta com o pensamento espiritual e abstracto do Oriente  é, segundo os defensores dos sentidos emocionais (Steiner, 1997; Le Doux, 1996; Weil, 1972) um ponto de vista errado para o entendimento das nossas acções.
A ciência fornece-nos uma visão da realidade segundo uma perspectiva racional que facilmente poderá ser apreendida pelo nosso cérebro e regida por regras imutáveis.
A nossa sede pela verdade científica, sobretudo nas ciências sociais e humanas, leva-nos para campos semelhantes à alegoria das cavernas. É necessário e urgente perceber que o que muitas vezes parece, pode não ser ou nunca ter existido.
Platão foi o primeiro a definir o conceito de razão, Kant tentou estabelecer os seus limites e Descartes, autor da famosa frase “penso, logo existo” desenvolveu o método evidência-análise-síntese que permitiu compreender mais claramente o racionalismo.
Este princípio, como qualquer outro princípio ou axioma, é indemonstrável (ou não seria princípio), não é verdadeiro nem falso em si mesmo, dada a impossibilidade dessa demonstração. Um pouco como as teorias interpretativas que conferem cientificidade à maior parte das ciências sociais, tal como já descrevi.
Esta procura de uma fundamentação ontológica e metafísica que garantisse a fundamentação lógico-gnoseológica da existência humana, do mundo e de Deus, é, para outros (Cooper e Sawaf, 1997; Goleman, 1995 e 1999) baseada numa necessidade sentimental, e, daí, não racional.
Damásio menciona que o grande problema do Descartes, e de todos os racionalistas, foi considerar que razão e emoção são coisas diferentes, que habitam em espaços distintos e que nunca se misturam (1995).
Este erro dualista em que as nossas reacções são fruto de um pensamento racional e que pouco ou nada tem a ver com o resto é contraposto pelos defensores da existência do Quoficiente Emocional (QE).
Goleman (1995) defende a existência de duas formas de conhecimento que agem em equilíbrio na percepção do exterior e no desenvolvimento das reacções humanas. O lado emocional é aquele que normalmente controla e demanda as decisões na vida e nos permite progredir, o lado racional permite negociar com as emoções atribuindo-lhes uma coerência.
A própria concepção do espaço físico e de tudo o que gira em redor dele é irracional ou desordenado atendendo às inúmeras capacidades de acontecimentos de acaso e situações de imprevisibilidade. Sistemas complexos emergentes, atractores e caos são outro tipo de conceitos que surgiram, após a revolução científica iniciada pelos resultados da pesquisa de Einstein e pelo aparecimento da mecânica quântica, para explicar regras inatingíveis.
Tal como afirma René Thom a “noção de ordem é antes de mais morfológica e em última análise geométrica, relativa e não absoluta, de modo que num sistema molecular, a desordem perfeita, absoluta à escala da molécula, pode à escala macroscópica ser considerada como uma ordem perfeita, pois todos os pontos do meio têm então as mesmas propriedades observáveis” (Pasternak 1993:13). Significa isto que tudo depende da escala “racional” com que observamos as coisas.
Contudo, um outro ponto de vista poderá defender uma razão para a existência do acaso. Henri Atlan (1993:15) atribui a possibilidade deste ser o resultado da nossa insuficiência cognitiva.
A ciência moderna consagrou o homem como ser racional, mas rejeitou-o enquanto ser dogmático e emocional, de tal forma que sujeito e objecto deveriam ser coisas totalmente distintas e a metodologia usada para o captar deveria distanciá-los. Nas ciências sociais, quer na etnografia, sociologia, antropologia ou mesmo na psicologia, este problema agrava-se quando o próprio objecto é também sujeito interveniente. Para se analisar o objecto era necessário uma metodologia de aproximação, sendo impossível não criar laços de afectividade e compreensões subjectivas.
No caso da arqueologia, em que o objecto é um sujeito ausente, a subjectividade aumenta, tornando-se quase impraticável conhecer a totalidade do real.
A metodologia utilizada, que em parte é fruto da ideologia em vigor e da forma como pensamos, vai ser também ela influenciada por esta confusão emocional. Digo emocional, pois acredito que as diferentes teorias que se sucedem são tão geradas pela paixão, medo, modas, preconceitos e preocupações como por desenvolvimentos científicos, ditos racionais.
Um exemplo muito simples poderá ser facilmente explicado com a corrente teórica histórico-culturalista, da arqueologia, dos inícios do século XX, onde, centrada num positivismo exagerado, fruto da ideologia em vigor, utilizava uma metodologia sobretudo descritiva dos dados encontrados, perdendo em muito a visão espacial dos acontecimentos ou até mesmo evolutiva dos mesmos. A importância firmava-se na captação de objectos identificativos de culturas, na criação de unidades tipológicas e na sua descrição pormenorizada (Alarcão 1996: 10). Com este tipo de prioridades as metodologias de escavações eram desenvolvidas em trincheiras, com contratos de mão-de-obra rápidos e eficientes, sem necessidade de grandes conhecimentos de história, onde o importante era que em pouco tempo chegassem ao essencial – o objecto. Uma grande parte dos vestígios eram, então, desperdiçados e destruídos por uma teoria que se dizia científica e racional, pois o objectivo teórico encontrava-se concretizado.
Posteriormente, com o surgimento de preocupações ambientais e ecológicas desenvolveu-se uma nova e forte corrente alterando a metodologia utilizada. Para a “Nova Arqueologia” era necessário compreender o Homem inserido e interagindo com o meio. Foram integrados novos conceitos e postulados, como a visão sistémica das culturas, a racionalidade económica do comportamento, a pretensão nomotética (1996:12-14), entre outros, que levavam e levam os seus seguidores a procurarem uma série de novas respostas. Um pouco a par da “Nova Arqueologia”, a filosofia de Karl Marx, transposta para a corrente marxista da arqueologia, pretendia colocar como ponto fulcral de toda a evolução humana e mudanças da sociedade, as forças de produção e as relações sociais, levando os seus seguidores a desenvolverem interpretações sociais para os acontecimentos. Entre outros exemplos que podíamos mencionar.
Verdade ou hipótese, razão ou emoção, seja qual for o caminho trilhado para a compreensão dos acontecimentos estudados pela arqueologia, devemos ter sempre consciência de que lidamos com dados, referentes a um mundo passado, constituídos como tal e interpretados por nós no presente.
Não pretendo ser (como o leitor já deve ter compreendido) positivista. É impossível, como todos nós já sabemos, compreender seja o que for sem enquadrarmos nessa percepção do mundo um pouco de nós. Acho que é exactamente isto que nos faz humanos. Pretendo sim deixar aqui, como muitos já o fizeram, um alerta. Tal como disse Nietzsche: "Pensam os sábios, com razão, que os homens de todas as épocas imaginavam saber o que era bom ou mau, louvável ou condenável. Mas é um preconceito dos sábios acreditar que hoje o sabem melhor que em qualquer outra época."

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Simulando o passado: A realidade virtual ao serviço da arqueologia

Resumo:
Desde à uma década atrás, que progressivamente, se têm desenvolvido projectos e conteúdos tridimensionais na arqueologia portuguesa.
Estes conteúdos, sejam científicos ou didácticos, permitem compreender o passado através de um ponto de vista diferente do até actual. A sua aplicação na investigação e na pedagogia permitirá percepcionar e visualizar melhor os objectos, as estruturas e o meio, permitindo uma interacção entre o usuário e o computador e possibilitando a sua disponibilização em tempo-real.
Até que ponto as reconstruções são importantes, é uma pergunta que podemos fazer. Contudo está claro que algumas das limitações do 2D, mesmo que teoricamente não sejam relevantes, são facilmente ultrapassadas proporcionando uma melhor percepção dos vestígios arqueológicos.

Palavras chave: 3D, Arqueologia, Realidade Virtual, Interactividade, Modelos Dinâmicos

As mudanças na visualização de dados

As primeiras reconstruções e aproximações técnicas do uso das três dimensões foram desenvolvidas nos anos 60, sobretudo por Ivan Sutherland na Universidade de Utah (Sutherland, 1965). O desenvolvimento destas aplicações foi, contudo muito lento, devido sobretudo às necessidades e aos custos económicos de tais conteúdos. A maior parte dos trabalhos que, posteriormente, se desenvolveram emergiram em instituições de cariz militar. Só nos anos 80 é que começaram a ser utilizados noutros meios, como é o caso da industria cinematográfica. O centro de pesquisa da NASA, Virtual Interface Environment Workstation Project teve um papel preponderante no desenvolvimento destas tecnologias, sobretudo com a produção do Data Glove.
A animação das reconstruções, através da disponibilização de uma sequência de imagens digitais consecutivas que iludem um movimento, possibilitou ultrapassar muitas limitações tecnológicas da representação do real, até então nunca experimentadas.
Nestas últimas duas décadas esta nova tecnologia expandiu-se a outras ciências, incluindo a arqueologia facilitando a percepção e a apresentação do passado.
Estas aplicações foram possíveis pelo aparecimento crescente de novos softwares com interfaces mais próximos do nível do utilizador e, naturalmente, pelo aumento das capacidades de hardware e diminuição dos custos com os meios informáticos. São exemplo disso as sucessivas versões do 3D Studio, 3D Studio MAX, 3D Studio VIZ, AUTOCAD, Bryce, Poser, Lightwave, entre outros.
A Internet teve também o seu papel no auxilio documental destas experiências facilitando o acesso a algumas demonstrações e na divulgação desta tecnologia, nomeadamente através do uso da linguagem VRML (Virtual Reality Modelling Language). O acrónimo VRML nascido pela primeira vez em 1994, em Geneva, no primeiro congresso dedicado ao World Wide Web, tornou-se desde então a ferramenta gráfica, por excelência, da visualização de reconstruções em Internet. Esta ferramenta permite disponibilizar simulações interactivas, facultando ao utilizador a possibilidade de “mexer” no objecto, caminhar por entre estruturas, visualizar diferentes perspectivas, entre outras funções.
As últimas inovações têm sido desenvolvidas na área da digitalização, através do uso de mecanismos de scanarização 3D. Esta nova tecnologia capta por triangulação de raio lazer os parâmetros dos objectos e das estruturas, transportando o seu relevo e todas as suas características para o computador, reconstruindo e dando volume ao objecto. Apesar de um pouco dispendioso, esta ferramenta torna-se notória pela rapidez e precisão, contudo falta-lhe uma melhoria na perfeição de captação de micro-relevos. O desenvolvimento desta funcionalidade permitiria captar mais facilmente, por exemplo, os difíceis filiformes da arte pré-histórica.
Na arqueologia, a possibilidade de transformar um pequeno fragmento num objecto ou de reconstruir virtualmente todo um espaço, abre (em teoria) um território amplo em possibilidades.
O objectivo da reconstrução virtual da cultura material é a obtenção de uma reprodução realista, de modo a conseguir uma aproximação tal como foi imaginado e construído no passado.
A representação em duas dimensões de um vaso circular com decoração em todo o seu redor, exigia um esforço e um desdobramento para a sua publicação. Da mesma forma um elemento arquitectónico necessitava de um desdobramento em várias perspectivas. As informações eram seleccionadas sendo só analisadas determinadas vertentes. A perca de dados era inevitável.
O artista, normalmente contratado para desenhar o objecto ou a estrutura, deparava-se com pequenos fragmentos e era através desta informação parcial e pelo auxilio da interpretação do arqueólogo, que imaginando, o representava em imagem.
Contudo, e apesar de todo o leque de possibilidades, o uso de reconstruções tridimensionais está longe de ser representativo. São escassos o número de representações tridimensionais em teses de doutoramento ou mestrado, artigos em revistas, apresentação em comunicações ou qualquer outro tipo de publicação cientifica em Portugal.
As razões para esta situação são várias:
• A novidade da técnica
• O número reduzido de pessoal preparado no domínio das técnicas
• Dificuldades de articulação entre várias áreas inter-disciplinares
• Desconfiança em relação à utilidade de tal aplicação
• Prioridade para outras áreas de investigação
Pode-se mesmo dizer que, em Portugal, a temática geral das aplicações informáticas à arqueologia tem vindo a ser vista um pouco como uma área paralela menor, de resultados práticos pouco importantes, deixada de parte perante outros temas mais importantes, nomeadamente o discurso teórico.
Gostaríamos no entanto de propor nestas breves linhas a conjugação destes vários elementos. A arqueologia faz-se de várias componentes, materiais e imateriais, teóricas e metodológicas. Consagrar primazias é no mínimo perigoso. A teoria, o método, os materiais fazem todos parte do mesmo conjunto enquanto ferramentas do saber.

Visualizar o passado

A visualização pode ser definida como uma representação gráfica de um conjunto de pontos abstractos com informações de interligação. Esta informação cria uma conexão para a compreensão da complexa linguagem numérica transposta em linhas, superfícies e sólidos, representando, desta forma, o objecto (Bryson 1994, Fishwick 1995, Barceló 2000). Isto é, a geometria, usada como linguagem visual, representa um modelo teórico que será captado pela zona sensorial do cérebro humano através do uso de sombras e luz, realçando os aspectos de volume e dando a ideia de real (FishwicK 1995).
Significa isto que um modelo visual representa a realidade decompondo-a em unidades (linhas, pontos ou polignos) com base na teoria geral do sistema. Como consequência, para imitar um mundo real, um modelo visual de representação deve integrar um conjunto de padrões, tais como a cor, a forma, a textura, a topologia e o movimento, dados por diferenças de iluminação (cor), mudança brusca de orientação das extremidades (forma), realçadas pelo reflexo e pelas suas variações uniformes (textura), pela diferenciação entre as extremidades em diferentes posições espaciais (topologia), e espaço temporais (movimento) (Barceló 2000).
Esta representação utilizada na disponibilização de informação ao público oferece várias vantagens pedagógicas, sobretudo pela apreensão imediata e mais atractiva dos elementos (Sanders 2000). Veja-se por exemplo o site da empresa norte-americana Learning Sites .
Permite ainda uma experiência que se torna mais interessante e estimulante para o utilizador.
Este tipo de tecnologia aplicado a museus, não só torna mais proveitosa, em termos de conteúdo, para o adulto, como torna a exposição mais divertida e estimulante para a criança, assumindo a realidade como menos abstracta e mais compreensível.
Modificando a tradicional imagem do museu como um lugar aborrecido.
Neste caso, já há muito que defendemos a criação de um museu virtual total, com informações sobre a arqueologia portuguesa, objectos reconstruídos, estruturas virtuais idênticas aos exemplares observados em escavações, animações que expliquem acontecimentos e ou determinado tipo de actividades, e a sua disponibilização ao público, quer por meios digitais, magnéticos, quiosques ou outros e com a criação de pequenos demos colocados on-line.
Assim sendo, o conceito de “museu vivo” ganhava realidade podendo, a cultura, estar acessível a todos em qualquer altura ou lugar.
O mesmo acontece com a aplicação desta tecnologia nas escolas. Os professores, ao utilizarem meios informáticos e audiovisuais (vídeos), poderão atrair e desenvolver as capacidades dos alunos. No fundo trata-se de criar um clima afectivo de interesse pelo passado.
O desenvolvimento desta tecnologia serve também para a construção de um mundo virtual total. “Os modelos geométricos podem ser animados incorporando interactividade” (Barceló 2000, 23).
O conceito de realidade virtual existe quando o mundo construído passa a ser interactivo e o modelo torna-se dinâmico auxiliado pelas diferenças de posição, tamanho, propriedades materiais, luz e perspectiva (Foley et al. 1996).
O tempo real é detectado pelo computador que traduz instantaneamente as modificações que o utilizador lhe indica representando a acção no ecrã, criando a ideia de interactividade tal como na realidade.
A imersão num mundo arqueológico virtual transmite ao utilizador um conjunto de sensações vividas por este, permitindo percorrer por entre os objectos, ruas, entrar nos edifícios, analisar detalhes, enfim visitar todo um espaço livremente, que pode ser enriquecido com outras informações importantes. Desta forma um indivíduo sentado em frente ao seu computador poderá realizar toda uma viagem no tempo. De igual modo constrói-se uma interacção que promove a ideia de realidade, ao chocar com os objectos, subir escadas, olhar pelas janelas.
Algumas experiências neste campo vão sendo produzidas actualmente por toda o mundo. No XXVI Computer Applications in Archaeology já se haviam apresentado mais de quarenta projectos diferentes ligados de algum modo a este tipo de tecnologia e em 2000, podiam-se contar com cerca de 70 projectos de reconstruções virtuais de estações arqueológicas em todo o mundo (Sanders 2000).

Possibilidades de análise

No campo cientifico permite-se ao investigador colocar questões que normalmente não poderiam ser respondidas numa visualização a duas dimensões.
O estudo de uma estação arqueológica está dependente da publicação dos seus resultados. Torna-se notório o papel fundamental das publicações no estudo de intervenções anteriores, assim como existe uma preocupação generalizada de publicar o maior número possível de dados como legado para investigações futuras. Assume-se assim a escavação como elemento de destruição, que como tal, deve ser acompanhada por uma longa descrição pormenorizada e várias ilustrações seriadas segundo um critério de custos e tamanho. Publicações que incluem dados da escavação, ilustrações da planta, estruturas, perfis e desenhos de artefactos, alguns cortes estratigráficos e pouco mais (Sanders 2000).
Será isto suficiente para que se compreenda toda a problemática da escavação, todo o trabalho empreendido e a profundidade da sequência histórica descoberta?
Um tratamento informático dos dados provenientes da escavação, pode encurtar o tempo despendido até à publicação dos mesmos, bem como aumentar a qualidade dos mesmos
A apresentação ganha novas possibilidades de expansão em termos de visualização.
Permite contextualizar os objectos na sua realidade espacial, e analisar questões estratigráficas, bem como associar informações antigas e novas da escavação, adicionado a informação em camadas sucessivas que podem ser correlacionadas e cruzadas entre si.
Uma melhor compreensão global da estação, vai sendo reconstruída pouco a pouco no gabinete, surgindo à posteriori num ecrã.
Não é, assim, de estranhar que este tipo de técnica seja aplicado em investigações interdisciplinares e na partilha de resultados de escavação.
A publicação destes resultados, devido à sua forma, torna possível alcançar um público mais vasto de uma forma mais rentável, prática e dinâmica.
A realidade virtual pode também ser usada para testar teorias, uma vez que a reconstrução virtual de estruturas pode identificar incoerências nos dados arqueológicos e rectificar hipóteses a cerca da aparência de elementos pré-históricos (Kantner 2000).
A modelação deve ser orientada no sentido de responder a determinados objectivos e a avaliar sobretudo elementos relativos a hipóteses e dados e não preocupada em ser excessivamente precisa sobre todos os elementos que caracterizam o objecto (Kantner 2000). Significa isto que se pretendemos perceber a relação por exemplo da arquitectura de um monumento com a posição dos astros, não é excessivamente necessário que se invista demasiado tempo a trabalhar na precisão da textura ou cor dessa mesma estrutura.
É um novo tempo para a investigação arqueológica.
Deixamos de estudar o passado com métodos antigos.
A nova tecnologia trará todas as condições favoráveis em termos recolha, estudo e publicação dos dados. As nossas questões poderão ser respondidas, ultrapassadas e estimuladas por uma nova maneira de visualizar o passado.

Aplicação Técnica

Uma questão básica, para quem pretende desenvolver este tipo de aplicações será, o tempo que seria necessário, para em parte, desenvolver aquilo de que alguns apelidam de “Pretty Pictures”.
Para demonstrar melhor estas capacidades analisemos alguns casos em estudo. O formato no qual é desenvolvido este texto não é em si o melhor. Aliás, é por essa mesma razão que advogamos a utilização de novos suportes de comunicação, nomeadamente o multimédia. Muito mais que folclore, espectáculo, ou meramente declaração politicamente correcta, esta é uma declaração de princípio que aplicamos na prática.
Tomemos em consideração uma paisagem, neste caso a região de Cheles do Alqueva, onde no seu centro podemos observar a passagem do rio Guadiana, dividindo, como fronteira, Portugal e Espanha.
Na carta militar 1:25 000 (figura n.º 1) e na fotografia aérea (figura n.º 2) podemos observar a zona em análise.
Na figura n.º 1 presenciamos um conjunto de curvas de nível, que naturalmente contêm informações a elas agregadas, nomeadamente a altitude. É com este tipo de informação, que neste primeiro caso, nós vamos trabalhar.



Figura n.º 1 – Região de Cheles na
Carta Militar 1:25.000, folha 474 Monsaraz.

Figura n.º 2 – Fotografia aérea da região
de Cheles.

A figura n.º 3 e n.º 4 evidênciam já uma aproximação a uma reconstituição. As diferentes linhas da altitude, encontram-se referenciadas com um X, um Y, e o mais importante um Z, as três dimensões.











Figura n.º 3 e n.º 4 – Tratamento 3D, através do estabelecimento de uma malha com as indicações de X, Y e Z.

Contudo, apesar de perceptível, a paisagem necessita de ser reconstruída, através da aplicação de texturas e luminosidade.
O céu, a luz, o brilho e a sensação de movimento da água, são tudo factores que nos ajudam a aproximar a reconstrução do real, tal como observamos nas figuras n.º 5, n.º 6 e n.º 7.


Figura n.º 5 – Vista da reconstrução SE – NW.

Figura n.º 6 – Vista da reconstrução SEE - NWW

Figura nº 7 – Vista da reconstrução de N – S.

Após a realização da reconstrução são inúmeras as possibilidades da sua utilização, desde a diversidade de imagens que podemos recolher, possibilitando uma melhor apresentação ao público; das animações que podemos desenvolver - desde o simples navegar à visualização de um ataque de guerreiros - os constantes dados que lhes podemos acrescentar - desde a reconstrução de um monumento ou vários e a sua localização no terreno, podendo observar, a sua visibilidade, a sua relação com a paisagem, com outros monumentos, bem como a sua relação com os astros, desenvolvendo animações do nascimento e pôr do Sol, ou ainda análises, como por exemplo, neste caso, uma reconstituição da paisagem após o enchimento da barragem (figura n.º 9)


Figura n.º 8 – Vista de topo da paisagem
a uma cota de 120 m)

Figura n.º 9 – Reconstrução virtual da paisagem após enchimento da barragem (cota 150 m).

Vejamos outro exemplo, neste caso um simples vaso cerâmico calcolítico com uma decoração metopada ou ainda um vaso com decoração incisa oculada.
As figuras n.º 10 e 12 apresentam os desenhos com todas as características do desenho arqueológico. São estas as informações que vamos utilizar, nomeadamente a espessura, o diâmetro da boca, a morfologia do vaso e o desenho da decoração.
Após transpormos estas informações e vectorizarmos o perfil podemos atribuir-lhe o 3D, preenchendo de igual forma todo o espaço em redor, tomando como ponto de partida e de chegada a informação traduzida na vectorização.
Tal como foi feito para a paisagem é necessário atribuir-lhes uma textura que se aproxime ao máximo da tonalidade e rugosidade da cerâmica, bem como incidir no vaso a simulação da decoração.
Assim, a textura, normalmente definida pelos atributos de contraste, direccionalidade, regularidade, rugosidade, linearidade e coesão, juntamente com a iluminação determinarão quais as linhas ou superfícies que mais deverão contrastar. O resultado final pode ser observado na figura n.º 11 e 13.



Figura nº 10 – Desenho arqueológico.
S.O.J., 1990)

Figura n.º 11 – Reconstrução do vaso calcolítico, com decoração metopada, proveniente do povoado da Vinha da Soutilha.


Figura nº 12 – Desenho arqueológico.
(S.O.J., 1990)

Figura n.º 13 – Reconstrução do vaso calcolítico, com decoração oculada, proveniente do povoado da Vinha da Soutilha.

A ilusão da decoração, bem como das texturas é dada por um conjunto de funcionalidades existentes em alguns solftwares. Neste caso a incisão e a rugosidade é dada pela distorção causada por partículas de pequenos altos e baixos e pela luminosidade.
Também neste tipo de exemplo se pode manipular o objecto rodando-o e analisando-o pormenorizadamente, tirando-lhe fotografias ou animando-o.
O processo de modelagem das estruturas é idêntico.
Quando visitamos as ruínas de um edifício torna-se difícil conceber qual a altura deste muro ou daquela parede. Assim muito do que é a reconstrução tridimensional de edifícios passa por um primeiro trabalho de análise da própria estrutura. A reconstrução de estruturas habitacionais exige sobretudo um trabalho prévio da cálculo arquitectónico. Importa assim executar um trabalho de desenho em plano das vistas frontal, lateral e planta.
Para o período romano utiliza-se sobretudo a obra de Vitruvio para desenhar os vários planos do edifício. Para períodos anteriores o trabalho torna-se dificultado por falta de referencias bem como pela perecíbilidade de algumas estruturas.
Partindo dos planos frontal, lateral e da planta (figura n.º 14) é executada a reconstrução do edifício como pode ser observado na figura n.º 15.



Figura n.º 14 – Planta do Templo romano
de São Cucufate (Alarcão et al. 1990)

Figura n.º 15 – Complexidade da reconstrução virtual do monumento.

Utilizam-se sobretudo sólidos geométricos de modo a obter o menor número de vértices, que proporcionam uma melhor manipulação dos objectos. Novamente são elementos como a iluminação, a cor e a textura que dotam de realismo a reconstrução.



Figura n.º 16 – Reconstrução Virtual do templo romano de São Cucufate.

A partir daí pode-se jogar com estes atributos de modo a obter um olhar particular sobre determinados elementos (iluminação da sala, aspecto do interior a determinada hora do dia, local de incidência das luz solar, etc.), podendo também conjugar diferentes objectos (expor materiais reconstruídos no seu interior, integrá-lo numa paisagem ou relacioná-lo com outras estruturas).

Conclusão:

Apesar de não podermos apresentar aqui animações ou reconstruções em formato VRML, mesmo assim, podemos perceber, com as imagens que demonstramos, algumas das capacidades das três dimensões.
Palavras tais como manipulação, interactividade, animação, ilusão, modelo dinâmico, três - dimensões, integram-se na compreensão do conceito de realidade virtual.
Esta nova realidade pode ser aplicado a tudo o que é material, desde as estruturas à paisagem que a envolve.
A sua utilização é idêntica à de um mapa, contento os mesmo problemas que outros sistemas de representação e modelação do real. Um modelo tridimensional é exactamente isso, uma representação da realidade que a torna maleável e passível de interpretações.
A potencialidade, mais do que a ferramenta, mede-se pelas questões que são levantadas ao modelo e pela necessidade de ter em conta as limitações da modelagem para realizar determinadas questões.
O grau de experimentação do passado é relativo.
Contudo também há que ter a frontalidade de dizer que há questões que ficam sem resposta.
Enfim, o modelo não é um fim em si mesmo, mas um meio para a compreensão do real.

Bibliografia:

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Fishwick, P. A. 1995, Simulation and Model Design and Execution. Building Digital Words. Englewood Cliffs. Prentice Hall.

Foley, J., Ribarsky, B., 1994, “Next-generation data visualization tools”. In Scientific Visualization. Advances and Challenges, Edited by L. Rosenblum et al. New York, Academic Press, pp. 103-127

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Sutherland, I. 1965 The Ultimate Display Information Processing, Proceedings of the IFIP Congress 65, 2, New York.