Wednesday, June 30, 2004

A Estação Calcolítica da Quinta da Atalaia, Trancoso

1- Introdução:

No decorrer do projecto de inventariação de estações arqueológicas do Concelho de Trancoso , distrito da Guarda, deparamos com uma estação de interesse para a compreensão do período Calcolítico para a Beira Interior Norte.
Pretende-se com este primeiro esboço de estudo da estação, de topónimo Quinta da Atalaia, encontrar paralelismos com os vestígios que nos forneceu, chegar à conclusão do marco cronológico em que ela se integra, inseri-la na problemática do mesmo e alertar a comunidade científica da sua existência.
Durante o projecto que levamos a cabo entre 1997-1998, dos levantamentos efectuados e das várias estações localizadas, esta chamou-nos particularmente à atenção, não só pela qualidade dos vestígios encontrados à superfície, bem como pela quantidade e formas dos mesmos.
No entanto, pouco poderemos adiantar sobre questões mais complexas, pois este estudo somente se refere a recolhas de superfície e à sua análise, uma vez que o estudo analítico de qualquer estação arqueológica, engendra e levanta problemas de interpretação suspeitados ou antes insuspeitados que só poderão ser resolvidos com a escavação.
O que pretendemos é mostrar todos os dados que possuímos desta estação, para que desta forma não seja mais uma a cair no esquecimento ou a ser arquivada numa gaveta e com ela se adquirir mais informação e quem sabe chegar a novas conclusões.
È certo que a prossecução deste estudo depende da intervenção no terreno e de um projecto cientifico e consistente para o estudo desta zona e do seu prolongamento a áreas envolventes.

2- Localização:

Local – Quinta da Atalaia
Freguesia – Carnicães
Concelho – Trancoso
Distrito – Guarda

A estação encontra-se num monte sobranceiro à Estrada Nacional 102, ao quilómetro 124, sendo acessível por um carreiro que parte da curva conhecida como a “Curva do Costa Lima”.
No sopé deste monte, do lado Oeste situa-se a Quinta da Atalaia, topónimo que se prolonga até ao alto do monte.
A estação localiza-se no cume, num local plano de cota 614 m. e de localização geográfica, segundo a “Carta Militar de Portugal”, na escala de 1:25.000, folha 181 – Vila Franca das Naves (Trancoso)

UTM: P - 4510,675
M - 640,68.


3- Enquadramento Geográfico:

A estação da Quinta da Atalaia, como já referimos, localiza-se no topo de um monte onde se torna notória a relação existente com os recursos hidrográficos, pois a Ribeira das Canadas, a Oeste, atravessa o vale a 200 m. do local estudado, existindo também uma série de outros cursos de água que nascem nas vizinhanças e desaguam na referida ribeira.
Toda a zona, onde se integra o povoado, é composta por granito porfiróide de grão médio e fino que constituí a mancha de Carnicães prolongando-se a Norte até Trancoso e a Oriente até à Broca.
Os vestígios encontrados ocupam uma área relativamente próxima dos 1000 m2, controlando uma vasta área de visibilidade, principalmente a Sul, como se pode verificar na Fig. 2.
O local é hoje em dia ocupado por uma plantação de castanheiros, sendo cercado por um aparelho de pedra, só visível em alguns locais devido ao intenso matagal que se lhe sobrepõe. Este aparelho circundará possivelmente todo o cimo do monte, no entanto só poderemos chegar a mais conclusões após a limpeza da densa vegetação.
A localização deste povoado permite controlar visualmente uma extensa área, e usufruir dos recursos hídricos, existentes nas proximidades, características comuns à descrição de outros povoados do mesmo período, quer ao Norte, quer ao Sul de Portugal.
Na área estudada pelo Dr. Carlos Valera três locais (Castro de Santiago, Fraga da Pena e Quinta da Assentada) apresentam, em termos topográficos, similaridade com a estação da Quinta da Atalaia, implicando uma localização em sítios destacados, com um vasto campo visual, dominando a paisagem e com condições naturais de defesa (Valera, 1997, pág. 151).
Para o Norte de Portugal, a grande parte das estações de habitat identificadas estão implantadas em terrenos de altura, em encosta, dominando vales importantes (Jorge, 1986, pág. 822) que assumem um papel de domínio na paisagem. Este fenómeno que surge desde o início do IIIº milénio a.C. reflecte-se por um movimento de progressiva ocupação sedentária do espaço (Jorge, 1986, pág. 919).
O monte onde se localiza a estação, faz parte de um conjunto montanhoso que se prolonga a Norte de Trancoso até ao Rio Douro atravessando a região de Moreira de Rei, Casteição, Meda, Touça e Freixo de Numão e a Sul até á plataforma do Rio Mondego passando por Forno Telheiro e Celorico da Beira. No sopé Oeste desta formação forma-se um planalto onde existe uma extensa rede hidrográfica, donde se destaca a Ribeira das Canadas, uma óptima via de comunicação que aliás é aproveitada para grande parte do traçado do I.P. 2.




4- Os Materiais:

Dos materiais recolhidos, destacam-se recipientes cerâmicos, tais como taças, taças de bordo espessado, pratos de bordo espessado e taças carenadas (Fig. 3), decoração “penteada” e canelada (Fig. 4), um fragmento de peso de tear rectangular em argila (Fig. 5), alguns machados (Fig. 6, 7, 8), percutores, enxó polida em anfibolite (Fig.9), moinhos manuais em granito (Fotos 3, 4), e duas lascas de restos de talhe em sílex (Fig. 10).
É de referir a grande quantidade e material lítico polido (Foto 2) e a existência de matérias-primas, de natureza lítica, exteriores a esta região.
Os materiais cerâmicos descobertos revestem-se de alguma importância por referenciarem uma interacção de elementos geralmente atribuído a mundos considerados tão distintos como o do Norte e do Sul de Portugal.
A decoração “penteada”, é referida como um elemento predominante da área interior Transmontana (Jorge, 1986, pág. 825), sendo considerada como hipótese, uma evolução interna para cada estação deste tipo de organização decorativa, sendo destinguidos pela autora dois tipos de organização mais arcaicos (os tipos V1 e V2) e um tipo de organização mais evolucionada (o tipo V3) (Jorge, 1986, pág.827).
Assim, esta tipologia decorativa surge como uma matriz que atravessa todo o Norte de Portugal e poderia ser originária da área de Telões – Chaves, tendo como marcos cronológicos a primeira metade do IIIº milénio a.C., perdurando até inícios do IIº milénio a.C.(Jorge, 986, pág. 828).
Nos trabalhos realizados a Oeste desta estação, mais concretamente no Castro de Santiago (Fornos de Algodres), pelo Dr. Carlos Valera, surgiu apenas um único exemplar enquadrado pelo autor dentro da sua organização tipo I, que se refere a uma banda “penteada”, distinguindo-a de outros tipos de decoração de impressão de pente lateralmente ou de topo, que “dão origem a motivos diferentes e que em alguns sítios arqueológicos assumem clara diferenciação cronológica” (Valera, 1997, pág. 84 e nota 9).
Nos locais estudados por este autor as cerâmicas “penteadas” rareiam em contextos Calcolíticos, (São Tiago, Quinta dos Telhais, Corujeira, Buraco da Moura, Penedo da Penha, Laceiras) aumentando o seu número em contextos de Calcolítico Final/Bronze Inicial como Linhares, Fraga da Pena, Malhada e Murganho 1(Valera, 1997, pág. 92).
O fragmento da Fig. 5 assemelha-se aos denominados pesos de tear encontrados em estações como Cunho (Sanches, 1992, pág. 93), Pastoria, Castelo de Aguiar (Jorge, 1986, pág. 832 e Est. CCV n.º6), Castelo Velho (Jorge 1993, 187), Castro de Santiago (Valera, 1997, pág. 88 e Est. XVIII).
Segundo Dr. Carlos Valera, os pesos de tear da Beira Alta e do Norte de Portugal são mais robustos, no sentido de serem mais pesados, mais espessos, com uma morfologia mais rectangular e mais alongados, diferenças relacionadas pelo autor a diferentes técnicas de tecelagem (Valera, 1997, pág. 90) .
A Fig. 3, nº3 representa um fragmento de uma taça carenada, encontrando-se paralelos regionais na estação da Fraga da Pena, (Valera, 1997, Fig.12 n.º1), que segundo o estudo da mesma estação, são considerados ausentes dos contextos Neolíticos e Calcolíticos locais fazendo-a corresponder a novidades formais de um Calcolítico Final ou Bronze Inicial, (Valera, 1997, 64).
Os objectos das Fig. 3, nº1 e 2 são mais similares aos contextos do Sul de Portugal, sobretudo ao mundo do Sudoeste, como os pratos e os bordos espessados .
No Castro de Santiago surgiu um elemento de uma taça de bordo espessado, sendo integrado como o sub-tipo 2.3 dentro da tipologia elaborada pelo investigador dessa estação, (Valera 1987, pág. 66 e Est. VI, n.º 4 ). Este mesmo autor refere os pratos, ausentes na estação de Santiago, como comuns no Neolítico Final regional e no Calcolítico do Sul de Portugal, afirmando a possibilidade de as taças rasas assumirem uma função semelhante à dos pratos nomeadamente no consumo de “farinhas”, “sopas” e “saladas”, (Valera 1987, pág. 80).
É nos difícil integrar as duas peças referidas dentro do panorama regional devido aos poucos paralelos existentes. Podemos afirmar que não se tratam de bordos almendrados, mas para estes dois elementos pensamos que o nº1 assume-se como uma taça bastante rasa de bordo espessado e o da nº2 como um prato. De facto são estes as duas peças que nos levantam mais interrogações.

Conclusão:

Com base na análise dos materiais recolhidos à superfície desta estação, podemos afirmar, que se trata de um contexto Calcolítico, como podemos ver pelos marcos cronológicos de materiais como a cerâmica penteada, ou os pesos de tear, bem como dos elementos de bordo espessado, ainda que para estes últimos seja difícil afirmar algo em concreto pela escassez de dados, e como tal apenas se poderá ter um conhecimento mais profundo após a escavação do local, que poderá trazer uma contextualização mais eficaz destes materiais, bem como uma datação mais rigorosa. Alguns materiais como a carena da Fig. 3, nº3 reportam para uma cronologia mais tardia, ligada a contextos do Bronze inicial.
No decorrer dos trabalhos foram ainda identificados dois megálitos, o de Aldeia Nova, já referenciado por outros autores (Chaves, L. s/d.; Moita, I. 1966; Leisner G. e Leisner V., 1998) e cujo espólio se encontra no Seminário de Gouveia, e a anta da Venda do Cepo. Estes dois monumentos podem ajudar a contextualizar esta estação por isso teriam de ser incluídos num projecto de investigação desta área. Estamos certos que com prospecções intensivas inseridas dentro desse mesmo estudo, seria possível encontrar mais estações ligadas a esta problemática e assim ajudar a compreender o contexto cronológico do III milénio a.C.


Bibliografia:

Chaves, Luís, s/data, As antas de Portugal, nomes populares, regionais e locais: influência exercida na toponímia, Arqueólogo Português 2ªsérie, vol. I, pág 95 a 115.

Jorge, Susana Oliveira (1986), Povoados da Pré - História Recente (IIIº - inícios do IIº Milénios a.C.) da Região de Chaves – V.ª P.ª de Aguiar (Trás-os-Montes Ocidental), vol. I – B, Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras do Porto, Porto

idem (1993), “O Povoado de Castelo Velho (Freixo Numão, Vila Nova de Foz Côa) no contexto da Pré-História recente do Norte de Portugal”, Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XXXIII – Fasc. 1-2, pp. 179-197, S.P.A.E., Porto

Leisner, G. e Leisner, V. (1998), Die Megalithgräber der Iberschen Halbinsel: Der Western, vol. IV , Berlim

Moita, Irisalva , (1966), Características predominantes do grupo dolménico da Beira Alta, Ethnos, vol. V, pág. 273.


Sanches, Maria de Jesus (1992), Pré-História Recente do Planalto Mirandês (Leste de Trás-os-Montes, Monografias Arqueológicas 3, G.E.A P., Porto

Valera, António Carlos (1997), O Castro de Santiago (Fornos de Algodres, Guarda), Aspectos da Calcolitização da bacia do alto Mondego, Textos Monográficos 1, Câmara Municipal de Fornos de Algodres, Lisboa

idem (1997), “Fraga da Pena (Sobral Pichorro, Fornos de Algodres): Uma primeira caracterização no contexto da rede local de povoamento”, Estudos Pré-Históricos, Vol. V, pp. 55-84, C.E.P.B.A, Viseu


Por: Alexandra Àgueda de Figueiredo e Gonçalo Cardoso Leite Velho
Publicado na Revista CEPBA

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