Wednesday, June 30, 2004

A VERDADE DA CIÊNCIA: O DILEMA RACIONAL

Resumo:
Uma teoria, em arqueologia, é sempre fruto de discórdias e interpretações subjectivas. Como tal e com o avançar do tempo elas modificam-se, solidificam-se e desaparecem um pouco ao sabor daquilo em que se acredita.
Desta forma, pouco ou em nada estão relacionadas com a razão.
Estas poucas linhas, que apresento a seguir, são uma espécie de introspecção daquilo em que vamos acreditando.

Palavras-chave: Razão/Emoção; Arqueologia; subjectividade e Ciência

Na arqueologia, principalmente na pré-história, a falta de fontes de informação credíveis e as constantes hipóteses que criamos baseadas na dúvida ou numa coincidência, levam-nos a acreditar em teorias ou ideias que só vingam através da capacidade que detemos de convencer o próximo e a nós mesmos.
As teorias ressurgidas na arqueologia e mesmo na antropologia que emergiram com o tempo e ao sabor das ideologias são bem o exemplo disso.
A forma como os problemas teórico-científicos, da sociedade e da interacção de culturas são abordados e resolvidos dependem das circunstâncias em que emergem, dos meios impulsionadores e dos desejos dos intervenientes directos (Feyerabend 1991). Sendo assim, é impossível permanecer no tempo com os mesmos postulados.
Thomas S. Kuhn considera a existência de dois tipos de descobertas em ciência: as normais e as revolucionárias (1970:19). As primeiras originadas pela maturação histórica e científica; as segundas obtêm a sua génese no resultado de uma disputa entre paradigmas opostos – um pouco à semelhança da dialéctica de Hegel – na oposição de duas ideias, podendo uma nova teoria ser adoptada para resolver a crise.
Normalmente, uma vez que nos encontramos no interior da bola gigante da ciência, não nos é possível avaliar convenientemente as mudanças, os diferentes conceitos ou mesmo as diferentes percepções teóricas; e assim, vamos caminhando como que num jogo de afirmação ou negação às novas teorias que vão surgindo.
Todas estas teorias científicas, e principalmente as sociais, poderão ser enquadradas e entendidas como um conjunto de verdades. O mensageiro técnico ou o ditador teórico lança as bases da sua crença que, apoiadas num conjunto de elementos (tradições culturais, novas preocupações, modas, propaganda), lhe possibilitarão o sucesso, e assim vão crescendo e sedimentando-se. Normalmente aparecem vindas de outras ciências ou de explicações que surgiram hà uns séculos atrás, que, esquecidas num arquivo, regressam como guerreiros da paz, encaixando-se perfeitamente no patamar evolutivo das novas leis da ciência, resolvendo o dilema teórico.
Parece-nos que, para a maioria das pessoas, um sinónimo de razão/racionalidade será pensamento/verdade. Ora, aquilo a que assistimos é que para haver “progresso” é sempre necessário destituir a própria razão. Logo (e por esta lógica) destituímos a própria verdade. Isto acontece mais com casos mais concretos sobretudo relacionados com as ciências naturais, onde a razão parece ter mais alento. Na arqueologia, onde as certezas não abundam, as teorias vão-se atropelando umas às outras na tentativa de se aproximarem mais do que se pensa ter acontecido; no entanto a teoria predominante não significa a mais verdadeira, mas talvez aquela que adquiriu mais seguidores. Vejamos o caso do que aconteceu com a polémica instaurada aquando da apresentação da Origem das Espécies de Darwin. Os postulados em que se acreditavam na altura baseavam-se no Criacionismo. Darwin ao explicar a nossa ascendência, as constantes mutações evolutivas, bem como a teoria da selecção natural confrontou-se com toda a verdade acreditada até à altura. Darwin apoiava-se num pensamento racional de acordo com observações científicas por ele empregadas, contrapondo-se ao pensamento emotivo-dogmático da época; contudo a adesão foi lenta e nunca total; ainda hoje se discute na América a importância do criacionismo como corrente teórica para a compreensão da nossa origem como espécie. A existência destes casos pontuais vem reforçar a ideia de que a razão nem sempre vence, e por vezes nem será sempre aquela que se apresenta como a mais correcta, pois após o evolucionismo que dominou o século XIX, surgiram, que nem bola de neve, várias interpretações que, asseguradas por novas descobertas ou por novas ideias, disputavam o podium da verdade.
Este modelo de racionalidade terá tido a sua origem no século XVI no seio das ciências naturais, mas só no século XIX se terá estendido às ciências sociais emergentes. A metodologia científica e os princípios metodológicos racionais seriam as únicas formas correctas de conhecimento.
Este culto à razão, que no Ocidente é praticado quase como uma religião  veja-se por exemplo o tipo de arquitectura geométrica empregada que contrasta com o pensamento espiritual e abstracto do Oriente  é, segundo os defensores dos sentidos emocionais (Steiner, 1997; Le Doux, 1996; Weil, 1972) um ponto de vista errado para o entendimento das nossas acções.
A ciência fornece-nos uma visão da realidade segundo uma perspectiva racional que facilmente poderá ser apreendida pelo nosso cérebro e regida por regras imutáveis.
A nossa sede pela verdade científica, sobretudo nas ciências sociais e humanas, leva-nos para campos semelhantes à alegoria das cavernas. É necessário e urgente perceber que o que muitas vezes parece, pode não ser ou nunca ter existido.
Platão foi o primeiro a definir o conceito de razão, Kant tentou estabelecer os seus limites e Descartes, autor da famosa frase “penso, logo existo” desenvolveu o método evidência-análise-síntese que permitiu compreender mais claramente o racionalismo.
Este princípio, como qualquer outro princípio ou axioma, é indemonstrável (ou não seria princípio), não é verdadeiro nem falso em si mesmo, dada a impossibilidade dessa demonstração. Um pouco como as teorias interpretativas que conferem cientificidade à maior parte das ciências sociais, tal como já descrevi.
Esta procura de uma fundamentação ontológica e metafísica que garantisse a fundamentação lógico-gnoseológica da existência humana, do mundo e de Deus, é, para outros (Cooper e Sawaf, 1997; Goleman, 1995 e 1999) baseada numa necessidade sentimental, e, daí, não racional.
Damásio menciona que o grande problema do Descartes, e de todos os racionalistas, foi considerar que razão e emoção são coisas diferentes, que habitam em espaços distintos e que nunca se misturam (1995).
Este erro dualista em que as nossas reacções são fruto de um pensamento racional e que pouco ou nada tem a ver com o resto é contraposto pelos defensores da existência do Quoficiente Emocional (QE).
Goleman (1995) defende a existência de duas formas de conhecimento que agem em equilíbrio na percepção do exterior e no desenvolvimento das reacções humanas. O lado emocional é aquele que normalmente controla e demanda as decisões na vida e nos permite progredir, o lado racional permite negociar com as emoções atribuindo-lhes uma coerência.
A própria concepção do espaço físico e de tudo o que gira em redor dele é irracional ou desordenado atendendo às inúmeras capacidades de acontecimentos de acaso e situações de imprevisibilidade. Sistemas complexos emergentes, atractores e caos são outro tipo de conceitos que surgiram, após a revolução científica iniciada pelos resultados da pesquisa de Einstein e pelo aparecimento da mecânica quântica, para explicar regras inatingíveis.
Tal como afirma René Thom a “noção de ordem é antes de mais morfológica e em última análise geométrica, relativa e não absoluta, de modo que num sistema molecular, a desordem perfeita, absoluta à escala da molécula, pode à escala macroscópica ser considerada como uma ordem perfeita, pois todos os pontos do meio têm então as mesmas propriedades observáveis” (Pasternak 1993:13). Significa isto que tudo depende da escala “racional” com que observamos as coisas.
Contudo, um outro ponto de vista poderá defender uma razão para a existência do acaso. Henri Atlan (1993:15) atribui a possibilidade deste ser o resultado da nossa insuficiência cognitiva.
A ciência moderna consagrou o homem como ser racional, mas rejeitou-o enquanto ser dogmático e emocional, de tal forma que sujeito e objecto deveriam ser coisas totalmente distintas e a metodologia usada para o captar deveria distanciá-los. Nas ciências sociais, quer na etnografia, sociologia, antropologia ou mesmo na psicologia, este problema agrava-se quando o próprio objecto é também sujeito interveniente. Para se analisar o objecto era necessário uma metodologia de aproximação, sendo impossível não criar laços de afectividade e compreensões subjectivas.
No caso da arqueologia, em que o objecto é um sujeito ausente, a subjectividade aumenta, tornando-se quase impraticável conhecer a totalidade do real.
A metodologia utilizada, que em parte é fruto da ideologia em vigor e da forma como pensamos, vai ser também ela influenciada por esta confusão emocional. Digo emocional, pois acredito que as diferentes teorias que se sucedem são tão geradas pela paixão, medo, modas, preconceitos e preocupações como por desenvolvimentos científicos, ditos racionais.
Um exemplo muito simples poderá ser facilmente explicado com a corrente teórica histórico-culturalista, da arqueologia, dos inícios do século XX, onde, centrada num positivismo exagerado, fruto da ideologia em vigor, utilizava uma metodologia sobretudo descritiva dos dados encontrados, perdendo em muito a visão espacial dos acontecimentos ou até mesmo evolutiva dos mesmos. A importância firmava-se na captação de objectos identificativos de culturas, na criação de unidades tipológicas e na sua descrição pormenorizada (Alarcão 1996: 10). Com este tipo de prioridades as metodologias de escavações eram desenvolvidas em trincheiras, com contratos de mão-de-obra rápidos e eficientes, sem necessidade de grandes conhecimentos de história, onde o importante era que em pouco tempo chegassem ao essencial – o objecto. Uma grande parte dos vestígios eram, então, desperdiçados e destruídos por uma teoria que se dizia científica e racional, pois o objectivo teórico encontrava-se concretizado.
Posteriormente, com o surgimento de preocupações ambientais e ecológicas desenvolveu-se uma nova e forte corrente alterando a metodologia utilizada. Para a “Nova Arqueologia” era necessário compreender o Homem inserido e interagindo com o meio. Foram integrados novos conceitos e postulados, como a visão sistémica das culturas, a racionalidade económica do comportamento, a pretensão nomotética (1996:12-14), entre outros, que levavam e levam os seus seguidores a procurarem uma série de novas respostas. Um pouco a par da “Nova Arqueologia”, a filosofia de Karl Marx, transposta para a corrente marxista da arqueologia, pretendia colocar como ponto fulcral de toda a evolução humana e mudanças da sociedade, as forças de produção e as relações sociais, levando os seus seguidores a desenvolverem interpretações sociais para os acontecimentos. Entre outros exemplos que podíamos mencionar.
Verdade ou hipótese, razão ou emoção, seja qual for o caminho trilhado para a compreensão dos acontecimentos estudados pela arqueologia, devemos ter sempre consciência de que lidamos com dados, referentes a um mundo passado, constituídos como tal e interpretados por nós no presente.
Não pretendo ser (como o leitor já deve ter compreendido) positivista. É impossível, como todos nós já sabemos, compreender seja o que for sem enquadrarmos nessa percepção do mundo um pouco de nós. Acho que é exactamente isto que nos faz humanos. Pretendo sim deixar aqui, como muitos já o fizeram, um alerta. Tal como disse Nietzsche: "Pensam os sábios, com razão, que os homens de todas as épocas imaginavam saber o que era bom ou mau, louvável ou condenável. Mas é um preconceito dos sábios acreditar que hoje o sabem melhor que em qualquer outra época."

Bibliografia:
ALARCÃO, J. (1996) Para uma Conciliação das Arqueologias, Edições Afrontamento
COOPER, Robert e SAWAF, Ayman (1997) Inteligência Emocional na Empresa. Ed. Campus, 7ª edição
DAMÁSIO, António (1995) O Erro de Descartes, 12ª edição, Lisboa, Europa-América
FEYRABEND, Paul (1991) Adeus à Razão, Biblioteca de Filosofia Contemporânea, Edições 70
GOLEMAN, Daniel (1995) Inteligência Emocional. Ed. Objectiva, 15ª edição,
 (1999) Trabalhando com a Inteligência Emocional. Ed. Objectiva, 1ª edição
LE DOUX, Joseph (1996) O Cérebro Emocional. Ed. Objectiva, 1ª edição
PASTERNAK, Guitta Pessis (1993) Será preciso queimar Descartes? Do Caos à inteligência artificial: os cientistas interrogam-se. Relógio d’Água
STEINER, Claude (1997) Educação Emocional. Ed. Objectiva, 2ª edição
THOMAS S. Kuhn (1970) The structure of scientific revolutions. The University of Chicago.
WEIL, Pierre (1972) Liderança, Tensões, Evolução. Livraria Itatiaia Editora, 2ª edição

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